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Pioneirismo potiguar no voto feminino: feitos inéditos das mulheres do Rio Grande do Norte

© Acervo Arquivo Nacional

O Rio Grande do Norte detém um capítulo singular e extraordinário na história do voto feminino no Brasil e em toda a América do Sul. Muito antes da conquista nacional do direito ao sufrágio, o estado potiguar se destacou como um verdadeiro laboratório de avanços institucionais e de atos individuais de coragem que redefiniram o papel da mulher na política. Este pioneirismo, alicerçado por uma legislação progressista e pela articulação de figuras feministas proeminentes, não apenas permitiu que mulheres exercessem seu direito de escolha, mas também as impulsionou a ocupar cargos eletivos, quebrando barreiras e desafiando as normas sociais de sua época. A trajetória das cidadãs potiguares neste período é um testemunho da força e da determinação na busca pela plena cidadania.

Rio Grande do Norte: berço do sufrágio feminino no Brasil

A Lei Estadual nº 660 e sua importância histórica

Em 25 de outubro de 1927, o Rio Grande do Norte promulgou a Lei Estadual nº 660, um marco legislativo que eliminou a distinção de sexo para o exercício do sufrágio. Esta legislação, aprovada pelo então presidente do estado, Juvenal Lamartine, foi a primeira em território brasileiro a garantir institucionalmente o direito ao voto para as mulheres, tornando o estado um precursor nacional e sul-americano. A aprovação desta lei representou uma vitória significativa para o movimento sufragista e abriu caminho para a participação feminina na vida política, um feito notável em uma época em que o cenário político global ainda resistia fortemente a tal inclusão. O texto da lei era claro e inovador, estabelecendo um precedente que ecoaria por todo o país.

O papel estratégico de Juvenal Lamartine e Bertha Lutz

A simpatia de Juvenal Lamartine pela causa do voto feminino foi crucial para a aprovação da Lei nº 660. Sua receptividade às ideias e à articulação de Bertha Lutz, renomada sufragista brasileira, desempenhou um papel determinante. Lutz, uma figura central na luta pelos direitos das mulheres no Brasil e no cenário internacional, manteve um diálogo estratégico com o presidente potiguar, influenciando diretamente a formulação e a aprovação da lei que viria a revolucionar a participação feminina na política regional. Essa colaboração entre lideranças políticas e ativistas feministas demonstra a importância da aliança entre o poder instituído e o movimento social para a concretização de avanços sociais, superando obstáculos e resistências culturais.

As primeiras eleitoras e votantes: Celina Guimarães e Júlia Barbosa

Celina Guimarães Viana: um ato individual de insurgência

Em novembro de 1927, impulsionada pela recém-aprovada lei estadual, Celina Guimarães Viana (1890-1972), moradora de Mossoró, a 280 quilômetros da capital Natal, protagonizou um ato individual de grande coragem e significado. Ela compareceu ao cartório para requerer seu alistamento eleitoral, um gesto que a classificou como uma feminista por natureza, dada a ousadia e a quebra de paradigmas para a época. Este passo a tornou a primeira mulher alistada como eleitora não apenas no Brasil, mas em toda a América do Sul. O ápice de sua participação cívica ocorreu em 5 de abril de 1928, quando Celina Guimarães Viana exerceu seu voto, consolidando-se como a primeira mulher na história brasileira a votar, um marco indelével na luta por direitos civis e reconhecimento social.

Júlia Alves Barbosa Cavalcante: a segunda pioneira

Na esteira do pioneirismo de Celina, outra cidadã, Júlia Alves Barbosa Cavalcante (1898-1943), da cidade de Natal, também fez seu pedido de alistamento no mesmo dia que Celina. Este ato a consagrou como a segunda eleitora do Brasil, reforçando o movimento de mulheres que buscavam seu lugar na esfera política e desafiavam as convenções. A adesão dessas primeiras mulheres ao processo eleitoral não foi um incidente isolado; ao todo, quinze mulheres no Rio Grande do Norte votaram naquele ano de 1928, demonstrando que o ambiente institucional e os atos de bravura individual haviam catalisado uma participação feminina real e significativa no estado, muito antes que o restante do país se movesse nessa direção. Este grupo inaugural de eleitoras solidificou o status do RN como vanguarda.

O pioneirismo na política eleitoral: Alzira Soriano, a primeira prefeita

A eleição e vitória contra a misoginia

O Rio Grande do Norte não se destacou apenas no direito ao voto, mas também no acesso a cargos eletivos. Em 1928, antes mesmo que as mulheres brasileiras tivessem o direito de votar em nível nacional, Alzira Soriano de Nóbrega Teixeira (1897-1963) fez história ao se candidatar à prefeitura de Lajes, a 130 quilômetros de Natal. Sua campanha foi um campo de batalha contra ataques misóginos severos, incluindo insinuações de que uma mulher pública seria sinônimo de prostituta, uma tática comum para desqualificar mulheres que ousassem entrar na política. Apesar dessas adversidades, Alzira Soriano foi eleita com 60% dos votos, tornando-se a primeira prefeita do Brasil e da América Latina, uma vitória política real e não meramente simbólica, que repercutiu internacionalmente e desafiou estereótipos profundamente enraizados.

Impacto e reconhecimento internacional

A vitória de Alzira Soriano em Lajes foi um evento de tal magnitude que ganhou as manchetes internacionais. O prestigiado jornal *The New York Times* noticiou a eleição, destacando o feito inédito de uma mulher assumir um cargo executivo em uma prefeitura na América Latina. Essa visibilidade global não só celebrou o sucesso de Alzira, mas também chamou a atenção para o progressismo do Rio Grande do Norte na pauta dos direitos das mulheres. Sua eleição serviu como um farol de esperança e inspiração para o movimento sufragista em todo o continente, provando que as mulheres eram capazes e merecedoras de ocupar posições de liderança política. A luta pelo voto e a abertura de candidaturas, como pontua a pesquisadora Cibele Tenório, estavam intrinsecamente ligadas à superação da resistência às pautas sociais femininas.

O contexto institucional e a aceleração das conquistas

Articulação política e organização feminista

As conquistas femininas no Rio Grande do Norte não foram frutos do acaso, mas sim da combinação de um ambiente institucional receptivo com uma organização feminista atuante. A promulgação da Lei de 1927 foi um resultado direto da pressão política e da articulação estratégica de Bertha Lutz com o governo estadual. Sem essa legislação inovadora, Celina Guimarães não teria tido a base legal para se alistar como eleitora, e Alzira Soriano não teria a permissão para se candidatar. Esse cenário demonstra como a colaboração entre figuras influentes e a existência de um movimento organizado são essenciais para transformar aspirações em direitos concretos e legalmente reconhecidos, criando um terreno fértil para a mudança social.

A singularidade do caso potiguar no cenário nacional

O caso do Rio Grande do Norte é considerado muito raro pela simultaneidade das conquistas do direito ao voto e à elegibilidade, ocorrendo antes do marco nacional de 1932, quando o voto feminino foi finalmente instituído em todo o Brasil. Essa antecipação de quase cinco anos evidencia a vanguarda potiguar no cenário político e social brasileiro. Especialistas na área enfatizam que, quando o ambiente político e institucional é receptivo e há uma organização feminista vigorosa, os avanços nos direitos das mulheres tendem a se acelerar exponencialmente. O gesto de mulheres comuns pedindo o que entendiam ser seu direito é visto como o mais subversivo e poderoso de toda essa história, reiterando que a mudança começa com a demanda popular e a coragem individual diante das adversidades e das normas estabelecidas.

O legado pioneiro do Rio Grande do Norte

Os feitos das mulheres do Rio Grande do Norte no início do século XX representam um legado inestimável para a história da democracia brasileira. A conjunção de uma legislação progressista, a visão de líderes como Juvenal Lamartine e Bertha Lutz, e a audácia de mulheres como Celina Guimarães Viana, Júlia Alves Barbosa Cavalcante e Alzira Soriano de Nóbrega Teixeira, pavimentou o caminho para a plena participação feminina na política. Este pioneirismo potiguar não apenas garantiu direitos fundamentais a suas cidadãs antes do restante do país e da América do Sul, mas também serviu de inspiração e modelo para o movimento sufragista nacional. A história dessas mulheres e o ambiente que possibilitou suas conquistas ressaltam a importância da vigilância e da luta contínua pela igualdade de direitos e oportunidades em todas as esferas da sociedade. Suas ações permanecem um lembrete poderoso de que a mudança social é impulsionada pela persistência e pela convicção de que a justiça é um direito de todos.

Perguntas frequentes

Q: Qual foi a importância da Lei Estadual nº 660 para o voto feminino no Rio Grande do Norte?<br>A: A Lei Estadual nº 660, de 25 de outubro de 1927, foi a primeira legislação em território brasileiro a abolir a distinção de sexo para o exercício do sufrágio, garantindo às mulheres o direito de votar e ser votadas, antes mesmo de qualquer lei nacional sobre o tema.

Q: Quem foi a primeira mulher a votar no Brasil e quando isso aconteceu?<br>A: Celina Guimarães Viana foi a primeira mulher a votar no Brasil e na América do Sul. Ela exerceu seu voto em 5 de abril de 1928, na cidade de Mossoró, no Rio Grande do Norte, após ter se alistado eleitoralmente em novembro de 1927.

Q: Quem foi Alzira Soriano e qual seu feito histórico?<br>A: Alzira Soriano de Nóbrega Teixeira foi a primeira mulher eleita prefeita no Brasil e na América Latina. Ela venceu as eleições para a prefeitura de Lajes, no Rio Grande do Norte, em 1928, enfrentando intensa misoginia e obtendo uma vitória significativa com 60% dos votos.

Descubra mais sobre a inspiradora trajetória das mulheres na política brasileira e o impacto de suas lutas por igualdade.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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