PUBLICIDADE

Legado da vacina contra covid-19 impulsiona o SUS

© Tânia Rêgo/Agência Brasil

A pandemia de covid-19, um dos maiores desafios sanitários do século, desencadeou uma mobilização científica sem precedentes em escala global. Menos de um ano após a identificação inicial do coronavírus, em 8 de dezembro de 2020, o mundo testemunhava a vacinação da britânica Margaret Keenan, marcando o início de uma era de esperança. Essa agilidade, muitas vezes questionada por desinformação, foi, na verdade, um triunfo da ciência e da capacidade de resposta global. No Brasil, essa jornada foi liderada por instituições como a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que desempenhou um papel crucial na produção da vacina Oxford/Astrazeneca, deixando um significativo legado para o Sistema Único de Saúde (SUS) e fortalecendo a autonomia produtiva do país em imunobiológicos. A experiência acumulada durante a crise sanitária demonstra o potencial do Brasil em enfrentar futuras emergências com maior preparo e capacidade.

Acelerada jornada científica e a mobilização global

Plataformas estabelecidas e conhecimento prévio

A rapidez no desenvolvimento das vacinas contra a covid-19 não adveio de um processo do zero, mas sim da adaptação e aplicação de plataformas tecnológicas já consolidadas. Pesquisadores e cientistas ao redor do mundo aproveitaram décadas de pesquisa em vacinas de RNA mensageiro (mRNA) e de vetor viral, que já haviam sido estudadas e aplicadas em diversas outras situações e doenças. Essas plataformas, embora inovadoras para o público em geral, já possuíam um arcabouço científico robusto, permitindo que a pesquisa se concentrasse na especificidade do Sars-CoV-2. A diretora do Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos da Fiocruz (Bio-Manguinhos), Rosane Cuber, uma das figuras centrais na vinda da vacina ao Brasil, enfatizou que houve uma adequação, não uma criação do nada, aproveitando um vasto acúmulo de pesquisa e conhecimento para o desenvolvimento ágil dos imunizantes. Esse histórico de pesquisa foi fundamental para a resposta global.

O papel de Bio-Manguinhos e Fiocruz

No contexto brasileiro, a Fundação Oswaldo Cruz, através de seu Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos), emergiu como um pilar essencial na estratégia de vacinação do país. Bio-Manguinhos, reconhecido pela produção de vacinas, biofármacos e kits diagnósticos, foi o responsável por trazer a vacina de Oxford/Astrazeneca para o território nacional. Rosane Cuber, que atuava como vice-diretora de qualidade na instituição durante a pandemia, liderou parte desse esforço monumental. Ao todo, o instituto entregou aproximadamente 190 milhões de doses ao Programa Nacional de Imunizações (PNI), um feito que garantiu a imunização de milhões de brasileiros e demonstrou a capacidade logística e produtiva da Fiocruz em um período de crise. A instituição, com seu histórico consolidado, estava preparada para esse desafio sem precedentes, aplicando sua expertise para salvar vidas.

Desafios e estratégias para a produção nacional

Da prospecção à transferência de tecnologia

A mobilização da Fiocruz começou logo nos primeiros sinais da disseminação do vírus globalmente. Em março de 2020, coincidentemente no mesmo mês em que a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou a pandemia, Bio-Manguinhos já inaugurava sua linha de produção de testes diagnósticos para o coronavírus. Paralelamente, um grupo de trabalho foi dedicado à prospecção de vacinas em desenvolvimento ao redor do mundo, com o objetivo de identificar um imunizante que pudesse ser produzido no Brasil por meio de um acordo de transferência de tecnologia. As negociações com a Universidade de Oxford e a farmacêutica AstraZeneca foram iniciadas em agosto de 2020, exigindo não apenas um esforço científico, mas também a construção de um arcabouço jurídico inovador para permitir a transferência de tecnologia de um produto que ainda estava em fase final de desenvolvimento.

Adaptação institucional e apoio social

Para viabilizar a produção da vacina em solo brasileiro, a Bio-Manguinhos precisou realizar uma verdadeira reengenharia interna. Todas as demais atividades do instituto foram temporariamente paralisadas, e os diversos grupos de trabalho foram redirecionados para o objetivo singular de trazer e produzir a vacina. Esse esforço conjunto envolveu inúmeros treinamentos diários e uma dedicação intensiva de toda a equipe. Além da mobilização interna, houve um engajamento significativo da sociedade civil, que desempenhou um papel crucial ao facilitar a aquisição de equipamentos, insumos e materiais essenciais, que eram escassos no mercado global devido à alta demanda. Essa sinergia entre o setor público e a sociedade civil foi um fator determinante para o sucesso da empreitada, demonstrando a força coletiva do Brasil em momentos críticos.

A consolidação da autonomia produtiva

Etapas da nacionalização

A chegada das primeiras doses prontas da vacina Oxford/Astrazeneca marcou um ponto de virada na estratégia brasileira. Em janeiro de 2021, logo após a aprovação de uso emergencial pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), 2 milhões de vacinas importadas a granel chegaram ao país, permitindo o início da aplicação em 23 de janeiro. A partir de fevereiro daquele ano, a Bio-Manguinhos iniciou a etapa de envase, rotulagem e controle de qualidade em suas instalações, utilizando o ingrediente farmacêutico ativo (IFA) que ainda era importado. O objetivo final, entretanto, era a produção integral do IFA em território nacional. Áreas produtivas foram meticulosamente adaptadas para essa fase final da transferência de tecnologia. Em fevereiro de 2022, a população brasileira começou a receber as doses que eram 100% produzidas no país, um marco histórico na autonomia sanitária nacional.

Capacidade instalada e o papel da Anvisa

A diretora Rosane Cuber enfatizou que todo o processo de nacionalização da vacina foi substancialmente facilitado pela capacidade pré-existente de Bio-Manguinhos, reconhecido como o principal laboratório público de desenvolvimento de vacinas no Brasil. A instituição já possuía uma vasta experiência em transferência de tecnologia e produção local de imunobiológicos, com diversas vacinas já completamente nacionalizadas e produzidas há muitos anos. Essa "capacidade instalada" não se restringia apenas ao conhecimento técnico, mas também incluía uma infraestrutura industrial robusta. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) acompanhou de perto cada etapa do processo, desde a importação até a produção nacional do IFA, garantindo a segurança e a eficácia das vacinas aplicadas na população, reforçando a confiança pública no imunizante.

O impacto duradouro no sistema de saúde brasileiro

A interrupção da produção da vacina pela Fiocruz após o fim da pandemia, em função da disponibilidade de outras vacinas mais modernas adquiridas pelo Ministério da Saúde, não diminui a magnitude de seu impacto. O imunizante produzido pelo instituto foi o mais utilizado no Brasil em 2021, ano crucial para o início da imunização em massa. Estimativas de especialistas indicam que a vacinação contra a covid-19, iniciada com o protagonismo da Fiocruz, poupou aproximadamente 300 mil vidas apenas neste primeiro ano.

O verdadeiro legado dessa mobilização transcende os números de doses entregues ou vidas salvas. Ele reside no fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS) e na consolidação da capacidade industrial e científica do Brasil. A experiência demonstrou a resiliência do SUS, sua capilaridade e a importância de um parque produtivo nacional robusto para a saúde pública. O país reafirmou sua posição como ator global na produção de imunobiológicos, capacitado para responder rapidamente a futuras crises sanitárias, reduzindo a dependência de mercados externos e garantindo o acesso da população a tratamentos vitais. Este preparo institucional é um benefício de longo prazo para a saúde da nação.

Perguntas frequentes sobre o legado da vacina

<b>Q1: Qual foi o principal legado da produção da vacina contra covid-19 para o SUS?</b><br>R: O principal legado foi o fortalecimento da capacidade de resposta do SUS a emergências sanitárias, a consolidação da autonomia produtiva do Brasil em imunobiológicos, a reafirmação da importância da Fiocruz como polo tecnológico e o salvamento de milhares de vidas. A experiência demonstrou que o SUS e as instituições públicas de pesquisa são pilares essenciais para a segurança sanitária nacional.

<b>Q2: Como a Bio-Manguinhos/Fiocruz conseguiu produzir a vacina tão rapidamente?</b><br>R: A rapidez foi possível devido ao vasto acúmulo de conhecimento científico em plataformas de vacinas (como as de vetor viral), que já eram estabelecidas. Além disso, houve uma mobilização sem precedentes dentro de Bio-Manguinhos, com a paralisação de outras atividades, treinamentos intensivos e o apoio da sociedade civil para a aquisição de insumos, o que acelerou o processo de transferência de tecnologia e produção.

<b>Q3: A produção da vacina Oxford/Astrazeneca pela Fiocruz continua atualmente?</b><br>R: Não, a produção da vacina Oxford/Astrazeneca pela Fiocruz foi interrompida após o fim da pandemia. Esta decisão foi tomada em função da estratégia do Ministério da Saúde de adquirir outras vacinas mais modernas disponíveis no mercado, visando otimizar a campanha de imunização e adequar o estoque de imunobiológicos às novas demandas.

Para aprofundar seu conhecimento sobre o papel estratégico das instituições públicas na saúde e a importância da vacinação, explore mais conteúdos sobre o Sistema Único de Saúde e as iniciativas da Fiocruz.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

Leia mais

PUBLICIDADE