PUBLICIDADE

Jiboia-do-ribeira raríssima é resgatada viva no interior de São Paulo

G1

Uma descoberta de grande importância para a ciência e a conservação da biodiversidade mobilizou pesquisadores e a comunidade local em Juquiá, no Vale do Ribeira, interior de São Paulo. Uma jiboia-do-ribeira (Corallus cropanii), espécie considerada uma das mais raras do planeta, foi resgatada viva. Este achado representa um marco crucial, pois o animal, uma fêmea adulta de 1,70 metro de comprimento, oferece novas oportunidades para o estudo e a proteção de uma serpente criticamente ameaçada de extinção. A raridade da jiboia-do-ribeira e o escasso conhecimento sobre seus hábitos tornam cada exemplar vivo um tesouro inestimável para a pesquisa herpetológica, com potencial para desvendar mistérios sobre sua biologia e distribuição geográfica.

A descoberta e os primeiros cuidados

O resgate e a identificação
A serpente rara foi localizada em 22 de novembro por funcionários do vereador Thiago Barbosa (PP) em uma estrada rural de Juquiá. O avistamento imediato acionou Rafael Guimarães, da empresa PreserValle, que prontamente apoiou o resgate e o encaminhamento seguro do animal para as autoridades competentes. A localização desta jiboia-do-ribeira não foi um evento isolado, mas sim o resultado de esforços contínuos de educação ambiental na região. Pesquisadores apontam que um avistamento anterior, em abril de 2025 – embora o exemplar não tenha sido capturado –, serviu para sensibilizar os moradores locais. A campanha de conscientização permitiu que a população soubesse reconhecer a espécie, fundamental para que o resgate atual fosse bem-sucedido. O coordenador do Projeto Jiboia do Ribeira (PJR), Bruno Rocha, e a pesquisadora Daniela Gennari, do Museu de Zoologia da USP e integrante do PJR, destacam que este exemplar, mesmo não sendo o mesmo de abril, é um “fruto” daquele primeiro registro feito por um morador.

Jornada de recuperação e pesquisa
Atualmente, a jiboia-do-ribeira resgatada está sob a supervisão atenta do Projeto Jiboia do Ribeira (PJR) e permanece em quarentena no Instituto Rio Itariri (IRI), localizado em Pedro de Toledo. Esta fase inicial é essencial para garantir a saúde e o bem-estar do animal antes de qualquer etapa de reintrodução. De acordo com a pesquisadora Daniela Gennari, a expectativa é que nos próximos dias a serpente seja transferida para um viveiro semi-intensivo. Este espaço está sendo cuidadosamente ambientado pelo especialista em bem-estar animal Lucas do Valle, que recria condições naturais como chuva, umidade e variações de temperatura, simulando o habitat da jiboia-do-ribeira para facilitar sua adaptação.

A serpente deverá permanecer nesse ambiente adaptado por vários meses. Além disso, ela passará por uma avaliação clínica aprofundada, que incluirá exames e um procedimento cirúrgico em uma clínica especializada para a implantação de um microchip. Este dispositivo é crucial para o monitoramento futuro da jiboia, permitindo que os pesquisadores acompanhem seus movimentos e saúde após a soltura. Por conta da necessidade desses procedimentos e do período de adaptação, ainda não há uma previsão definida para a reintrodução do animal na natureza. Este exemplar é o primeiro vivo capturado em Juquiá, o que levanta a importante questão para os pesquisadores: ele pertence a uma nova população da espécie no Vale do Ribeira? Até o momento, apenas três outras jiboias haviam sido monitoradas na região, em Sete Barras e Eldorado.

Esforços de conservação e o papel da comunidade

O Projeto Jiboia do Ribeira e sua trajetória
O Projeto Jiboia do Ribeira (PJR) desempenha um papel fundamental na pesquisa e conservação desta espécie ameaçada, e completará uma década de atuação em 2026. Ao longo desses anos, o PJR já monitorou e reintroduziu com sucesso três exemplares de jiboia-do-ribeira à natureza, batizados carinhosamente de “Esperança”, “Ribeiro” e “Dona Crô”. A “Dona Crô” foi particularmente significativa, sendo a primeira a ser acompanhada diretamente em seu ambiente natural, proporcionando dados valiosos sobre o comportamento e ecologia da espécie. Após um hiato de 60 anos sem registros de exemplares vivos, o primeiro reaparecimento documentado ocorreu em 2017, quando moradores do bairro Guapiruvu encontraram uma jiboia, que foi então monitorada em parceria com pesquisadores do Museu de Zoologia da USP. Outros dois exemplares foram encontrados em 2020 e 2022, ampliando o conhecimento sobre a distribuição e a ocorrência da espécie. Com os recentes registros em Juquiá, tanto o avistado em abril quanto o capturado em novembro, o município assume uma posição estratégica como área de ocorrência para a jiboia-do-ribeira, intensificando a necessidade de ações de conservação local.

Engajamento social e educação ambiental
A colaboração da comunidade é um pilar essencial para o sucesso da conservação da jiboia-do-ribeira. Na próxima semana, o PJR lançará uma iniciativa que busca estreitar ainda mais essa relação: uma votação nas redes sociais para escolher o nome da jiboia recém-resgatada. Essa ação visa não apenas batizar o animal, mas principalmente mobilizar os moradores da região, criando um senso de pertencimento e responsabilidade coletiva pela proteção da espécie. A pesquisadora Daniela Gennari enfatiza a importância dessa interação, afirmando que “é um monte de perguntas em aberto que a gente tem sobre essa espécie, que a gente atua com a comunidade do Vale do Ribeira para obter essas respostas”. A educação ambiental tem se mostrado uma ferramenta poderosa, como demonstrado pelo impacto do registro de abril, que capacitou os moradores a reconhecerem e agirem corretamente quando o exemplar de novembro foi avistado.

A enigmática jiboia-do-ribeira: um tesouro da biodiversidade

História e características da espécie
A jiboia-do-ribeira (Corallus cropanii) possui uma história fascinante e, ao mesmo tempo, enigmática. Descoberta e descrita em 1953 pelo renomado herpetólogo Alphonse Richard Hoge, do Instituto Butantan, a espécie permaneceu sem registros de exemplares vivos por mais de seis décadas. Esse longo período de ausência a elevou ao status de lenda, com a comunidade científica questionando sua existência contínua. O primeiro reaparecimento notável ocorreu em 2017, quando moradores de Sete Barras encontraram um animal após 64 anos sem avistamentos documentados. Em 2020, outro exemplar foi resgatado no Parque Estadual Intervales (PEI). Este animal permaneceu seis meses em cativeiro, um período crucial para garantir sua saúde e bem-estar, além de permitir a realização de análises clínicas e a coleta de dados científicos importantes. Antes de sua soltura, a jiboia recebeu um radiotransmissor, uma ação que contou com o apoio essencial do Instituto Butantan. Esses estudos são considerados fundamentais para ampliar o conhecimento sobre a espécie, seus hábitos e ecologia, e para orientar estratégias de conservação eficazes. A aparição mais recente antes do exemplar de Juquiá foi registrada em 2022, quando um macho foi encontrado no bairro Guapiruvu, também em Sete Barras, e posteriormente solto no núcleo Guapiruvu do PEI, o mesmo local onde havia sido visto dois anos antes. Cada novo registro desta rara jiboia-do-ribeira adiciona uma peça vital ao quebra-cabeça de sua existência, reforçando a urgência de sua proteção.

A esperança para o futuro da jiboia-do-ribeira

A recente descoberta da jiboia-do-ribeira em Juquiá transcende o simples resgate de um animal. Representa um vislumbre de esperança para a conservação de uma das serpentes mais raras e misteriosas do planeta. Este evento reforça a importância vital da pesquisa científica contínua, da educação ambiental e do engajamento comunitário no Vale do Ribeira. Com cada novo exemplar estudado, os pesquisadores se aproximam de desvendar os segredos dessa espécie, permitindo a criação de estratégias de proteção mais eficazes. A jornada de recuperação e reintrodução da jiboia resgatada, juntamente com o envolvimento da população na escolha de seu nome, simboliza um passo significativo em direção a um futuro onde a jiboia-do-ribeira possa prosperar em seu habitat natural, um verdadeiro tesouro da biodiversidade brasileira.

Perguntas frequentes

Qual a raridade da jiboia-do-ribeira?
A jiboia-do-ribeira (Corallus cropanii) é considerada uma das espécies de serpentes mais raras do mundo, com poucos exemplares vivos registrados desde sua descrição em 1953.

Onde a jiboia-do-ribeira resgatada está sendo cuidada?
O animal está em quarentena no Instituto Rio Itariri (IRI), em Pedro de Toledo, sob supervisão do Projeto Jiboia do Ribeira (PJR). Será transferida para um viveiro semi-intensivo para adaptação.

Quando a jiboia-do-ribeira será reintroduzida na natureza?
Ainda não há previsão. O animal passará por avaliação clínica, implantação de microchip e um período de adaptação em viveiro, o que levará alguns meses.

Qual a importância do resgate deste exemplar para a ciência?
Este é o primeiro exemplar vivo capturado em Juquiá, crucial para verificar a existência de uma nova população da espécie no Vale do Ribeira e ampliar o conhecimento sobre sua ecologia e distribuição.

Como a comunidade pode contribuir para a conservação da jiboia-do-ribeira?
A comunidade pode participar de iniciativas como a votação para o nome da jiboia e continuar a apoiar programas de educação ambiental, reportando avistamentos de forma responsável.

Acompanhe as atualizações do Projeto Jiboia do Ribeira e contribua para a conscientização sobre a importância da jiboia-do-ribeira e a conservação da biodiversidade do Vale do Ribeira.

Fonte: https://g1.globo.com

Leia mais

PUBLICIDADE