Helena Monteiro da Costa representava um elo humano singular com um passado que muitos insistem em considerar distante. Residente de Santos, cidade portuária que prosperou à custa de vasto trabalho, Helena carregava consigo a memória da escravidão brasileira de uma forma visceral, não por relatos históricos, mas como filha direta de um homem que viveu os horrores do cativeiro. Nascida em 1925, apenas 37 anos após a abolição oficial, sua existência centenária lançava luz sobre a chocante proximidade temporal da escravidão no Brasil, um país que recebeu o maior número de africanos escravizados no continente e que, paradoxalmente, optou por um rápido esquecimento. Sua história ressalta a urgência de revisitar as narrativas que moldaram nossa sociedade, especialmente em locais como Santos, intrinsecamente ligados a essa dolorosa herança.
Uma vida que desafia o tempo e o esquecimento histórico
A história de Helena Monteiro da Costa, falecida aos 99 anos, é um testemunho vívido da recente abolição da escravidão no Brasil. O país foi o último das Américas a abolir oficialmente o regime escravocrata, em 1888, tendo trazido coercitivamente cerca de 5 milhões de africanos escravizados, o maior número do continente. Esse período, frequentemente relegado a um passado distante nos livros didáticos, ganhou uma dimensão palpável através da vida de Helena, que nasceu poucas décadas depois da Lei Áurea.
A linhagem direta da escravidão e o trauma transgeracional
Helena era filha de Anízio José da Costa, conhecido como Maninho, que nasceu em Angola e foi sequestrado ainda criança, atravessando o Atlântico em um navio negreiro até o Brasil. Essa herança não foi transmitida por meio de registros formais, mas vivida e sentida no seio familiar. Maninho, que viveu até os 110 anos e teve filhos em idade avançada, raramente verbalizava as dores e memórias de Angola, preferindo focar no samba, na rotina e no trabalho árduo no Porto de Santos. O silêncio paterno, um mecanismo de sobrevivência comum entre os ex-escravizados, deixou um legado de fragmentos de dor que Helena absorveu, revelando como o trauma da escravidão não se encerra com a abolição, mas se perpetua por gerações, moldando identidades e destinos.
Trabalho precoce e o apagamento da memória negra em Santos
Aos 14 anos, Helena já trabalhava como cozinheira para famílias da elite santista e passou décadas como empregada doméstica, uma profissão frequentemente associada à exploração e à falta de reconhecimento. Sua vida de trabalho intenso, sem tempo para casamento ou filhos, ilustra as marcas profundas deixadas pela escravidão e suas estruturas de desigualdade. Enquanto Santos prosperava como o maior porto da América Latina, impulsionada pelo café e pelo trabalho, muitas vezes de pessoas negras escravizadas e seus descendentes, a cidade conviveu por décadas com o apagamento dessas histórias e personagens. Somente iniciativas recentes de afroturismo e valorização da memória negra têm revisitado lugares e vidas invisibilizadas, como o antigo Quilombo do Jabaquara, um dos maiores do Brasil, e a própria Helena, que sempre esteve presente, mas demorou a ser reconhecida.
Helena: uma ponte viva entre o passado e a reparação
A descoberta e o reconhecimento da trajetória de Helena Monteiro da Costa geraram espanto coletivo entre pesquisadores, jornalistas e historiadores. Como apontou a antropóloga Lilia Moritz Schwarcz, a história de Helena é singular, transformando-a em um elo humano concreto entre o Brasil escravista e o contemporâneo. Sua existência centenária serviu como um poderoso lembrete de que a escravidão não é um passado remoto, mas uma chaga que continua a moldar a renda, o território, o acesso a oportunidades e a distribuição de investimentos em cidades como Santos.
A grande travessia e o retorno simbólico a Angola
Em 2024, Helena ganhou destaque internacional ao manifestar o desejo de participar do projeto “A Grande Travessia”. Este cruzeiro transatlântico propõe refazer o caminho inverso dos navios negreiros, partindo do Brasil em direção a Angola, transformando o oceano em um espaço de memória e reparação histórica. Aos 99 anos, Helena representava não apenas um elo com o passado, mas a urgência de lembrar e de buscar o reencontro simbólico de famílias e identidades que foram brutalmente separadas. Sua presença neste projeto simbolizava uma ponte de cura e reconhecimento.
O legado de visibilidade e a reparação contínua
A partir do reconhecimento de Helena, a Baixada Santista iniciou um movimento para revisitar e valorizar personagens negros esquecidos. Seu nome passou a figurar em roteiros históricos e reportagens, tornando-se um símbolo da memória afro-brasileira. Em um gesto significativo de reparação histórica, em 2025, o pai de Helena, Anízio José da Costa, teve seu nome perpetuado em uma rua do Centro Histórico de Santos, substituindo a alcunha de um antigo escravocrata. Contudo, Santos ainda enfrenta o desafio de reconciliar seu futuro próspero com as estruturas históricas, baseadas na exploração, que construíram sua riqueza. A história de Helena nos convida a questionar quem tem o direito de permanecer visível na narrativa oficial de uma cidade e de um país.
O impacto duradouro da memória e o futuro da reparação
A vida de Helena Monteiro da Costa transcende a narrativa de uma mulher centenária; ela se tornou um farol para a compreensão da persistência do legado da escravidão no Brasil. Sua trajetória evidencia que a história é viva, moldando a realidade social e econômica de milhões de pessoas. O reconhecimento de Helena e de seu pai, Anízio José da Costa, representa um passo crucial na reparação histórica e na construção de uma memória mais justa e completa para Santos e para o país. É um convite à reflexão sobre as estruturas que sustentam as desigualdades contemporâneas e a importância de valorizar as vozes que, por tanto tempo, foram silenciadas.
Perguntas frequentes
Quem foi Helena Monteiro da Costa?
Helena Monteiro da Costa foi uma mulher santista, filha direta de um homem escravizado, que viveu até os 99 anos. Sua longa vida a tornou um elo humano singular com a memória recente da escravidão no Brasil, servindo como testemunho da proximidade temporal desse período histórico.
Qual a relevância da história de Helena para a memória da escravidão no Brasil?
A história de Helena Monteiro da Costa é relevante por humanizar e aproximar a escravidão, mostrando que ela não é um passado distante. Nascida apenas 37 anos após a abolição, sua vida e a de seu pai, Anízio José da Costa, ilustram como o trauma e as consequências do cativeiro impactam gerações, influenciando aspectos sociais, econômicos e territoriais até os dias atuais.
O que foi o projeto "A Grande Travessia" e qual a participação de Helena?
“A Grande Travessia” é um projeto que propôs um cruzeiro transatlântico do Brasil para Angola, refazendo o caminho inverso dos navios negreiros, com o objetivo de criar um espaço de memória e reparação histórica. Aos 99 anos, Helena manifestou o desejo de participar, simbolizando o reencontro e a urgência de lembrar as identidades e famílias separadas pela escravidão.
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