Há quatro anos, uma <b>família de Guarujá</b>, no litoral de São Paulo, iniciou uma jornada extraordinária, transformando um veleiro em lar e partindo para uma volta ao mundo sem data definida para retorno. Andréa Ruber de Freitas Westphal, de 43 anos, seu marido Luciano Westphal, de 47, e os filhos Leah, de 7, e Ian, de 5, embarcaram nesta aventura marítima em agosto de 2022, zarpando de Grenada, no Caribe. O que começou como um plano de três a quatro anos para circumnavegar o globo evoluiu para um estilo de vida permanente. A experiência, rica em descobertas culturais e geográficas, redefiniu o conceito de lar e infância para os Westphal, que hoje veem sua viagem como a própria essência de seu viver.
O sonho que virou realidade: da terra ao mar
A semente da aventura foi plantada por Luciano, que, com sua experiência anterior na área náutica, sempre acalentou o sonho de navegar pelos oceanos do mundo. O casal deu os primeiros passos em direção a esse ideal adquirindo um barco na Flórida. Durante três anos, eles aproveitaram as férias para explorar as águas azuis das Bahamas, um período que serviu como prelúdio para a grande jornada que se aproximava. Essa fase inicial foi crucial para consolidar o desejo e a familiaridade com a vida a bordo, preparando o terreno para a decisão de fazer do oceano seu novo endereço.
Planos adiados e a chegada dos filhos
Em 2018, com o nascimento da primeira filha, Leah, o casal comprou um novo veleiro e traçou o plano de iniciar a volta ao mundo assim que a menina completasse um ano. Contudo, a pandemia de Covid-19 impôs um atraso inesperado aos seus planos ambiciosos. Durante esse período de espera forçada, Andréa e Luciano tomaram a decisão de ter o segundo filho, aproveitando a comodidade de ainda estarem em terra firme. Ian nasceu em 2021, e a família aguardou pacientemente até que ele completasse seu primeiro ano de vida antes de finalmente içar as velas e partir para a aventura global, a bordo do veleiro batizado de “Liberdade”.
Travessias inesquecíveis: uma jornada sem fronteiras
Desde a partida, a família Westphal já percorreu um vasto e impressionante roteiro. A jornada os levou por águas cristalinas do Caribe, as vibrantes costas da Colômbia e do Panamá, e inúmeras ilhas paradisíacas do Pacífico. Entre os destinos marcantes, destacam-se Bonaire, Curaçao e Aruba, com suas culturas distintas, e as históricas cidades de Cartagena e Bocas del Toro. A família também realizou a desafiadora travessia do Canal do Panamá, um marco para qualquer navegador, antes de seguir para as singulares Ilhas Galápagos, as majestosas Marquesas, a encantadora Polinésia Francesa, Niue, Tonga, Fiji e a exuberante Nova Zelândia.
Estadias prolongadas e a beleza da Oceania
Em alguns desses destinos, a família optou por estadias mais longas, aprofundando-se nas culturas locais e na beleza natural de cada lugar. Passaram cerca de um ano explorando as ilhas e atóis da Polinésia Francesa, mergulhando em suas tradições e paisagens idílicas. A Nova Zelândia também foi um lar temporário por aproximadamente seis meses, oferecendo a eles a oportunidade de vivenciar a rica herança Māori e a deslumbrante natureza do país. Atualmente, os Westphal encontram-se novamente em Fiji, na Oceania, continuando sua exploração de um dos arquipélagos mais fascinantes do mundo, onde a vida marinha e a hospitalidade local são protagonistas.
Uma infância e educação a bordo: o mundo como sala de aula
Para Leah e Ian, a vida no veleiro representa uma infância atípica e enriquecedora. Longe das escolas convencionais, os irmãos seguem um currículo americano, garantindo a continuidade de sua formação acadêmica. Sempre que a oportunidade surge durante as paradas em diferentes países, eles frequentam escolas locais por curtos períodos, enriquecendo sua experiência social e cultural. Desde o início da jornada, já tiveram a chance de estudar em instituições de Grenada, Panamá, Polinésia Francesa e Nova Zelândia, expondo-os a diversos sistemas de ensino e interações com colegas de todo o mundo.
Aprendizado experiencial e o valor da vivência
No dia a dia a bordo do veleiro Liberdade, o aprendizado transcende os livros. Segundo Andréa, as próprias experiências da viagem transformam-se em aulas vivas. “Geografia é aprendida durante as navegações, enquanto exploramos novos continentes e coordenadas. História se revela no contato direto com diferentes culturas e seus legados. Biologia ganha vida nas experiências com a fauna e a flora marinhas”, relata ela. Para os pais, estar constantemente ao lado dos filhos é um dos maiores privilégios dessa escolha, permitindo-lhes acompanhar de perto cada descoberta e fase do crescimento das crianças. Essa proximidade, contudo, implica abrir mão de uma infância mais convencional, uma decisão consciente do casal. “Não queríamos necessariamente que elas tivessem uma infância mais fácil, mas sim uma infância mais vivida”, afirma o casal, destacando a prioridade na riqueza das experiências em detrimento da rotina padronizada.
A rotina no mar: entre o paraíso e os desafios
Apesar das paisagens deslumbrantes e dos destinos paradisíacos, a vida a bordo do veleiro Liberdade está longe de ser apenas um mar de rosas. A rotina da família é intensamente dividida entre os estudos das crianças, o trabalho dos pais, o meticuloso preparo das refeições, o planejamento detalhado das próximas etapas da viagem e a manutenção constante do veleiro. Esta vida real exige dedicação e resiliência, desmistificando a imagem de férias permanentes que muitos podem associar à vida no mar. A gestão do tempo e dos recursos é fundamental para a harmonia e segurança da família.
Trabalho, renda e sustentabilidade da jornada
Para sustentar a aventura, Andréa dedica-se à edição de vídeos para o YouTube e à administração das redes sociais, compartilhando as experiências da família e construindo uma comunidade em torno de sua jornada. Luciano, por sua vez, aproveita sua vasta experiência na área náutica para oferecer consultorias e realizar trabalhos de manutenção de motores, uma habilidade valiosa em qualquer porto. Além dessas atividades, a principal fonte de renda da família Westphal provém de investimentos, garantindo a solidez financeira necessária para a continuidade da volta ao mundo. Essa diversificação de fontes de receita é crucial para a liberdade e autonomia que desfrutam.
Planejamento e adaptação: o lado prático da vida em alto-mar
A alimentação é um aspecto que exige planejamento rigoroso, especialmente antes de travessias longas ou da chegada a regiões mais remotas, onde o acesso a suprimentos é limitado. O barco precisa estar sempre bem abastecido com alimentos não perecíveis e água potável, e todas as suas condições de navegabilidade devem ser asseguradas, uma vez que qualquer problema pode alterar drasticamente os planos. A adaptação à vida a bordo também implicou em um desapego significativo: deixar para trás objetos, uma casa espaçosa e a rotina convencional que tinham no Brasil. “Inicialmente foi muito difícil, porque a sensação que tínhamos era de realmente estar deixando tudo para trás”, relembra o casal. “Com o passar dos anos, percebemos que agora só precisamos ter conosco coisas que realmente importam”, concluem, refletindo sobre a transformação de seus valores e prioridades.
Conclusão
Após quatro anos desbravando oceanos e continentes, a família Westphal, de Guarujá, consolidou seu projeto de vida a bordo do veleiro Liberdade. O que começou como um ambicioso plano de volta ao mundo se metamorfoseou em um estilo de vida, onde cada porto é uma nova lição e cada travessia um teste de resiliência. A vida em alto-mar, com seus desafios diários de manutenção, planejamento e adaptação, provou ser muito mais do que férias permanentes; é uma existência real, repleta de responsabilidades, descobertas e uma imersão profunda em culturas e paisagens. Para Andréa, Luciano, Leah e Ian, a escolha de “viver” o mundo em vez de apenas visitá-lo representa uma busca contínua por experiências que enriquecem a alma e expandem os horizontes, provando que o lar pode ser onde o vento os levar.
Perguntas frequentes (FAQ)
<b>1. Como a família Westphal se sustenta financeiramente durante a viagem?</b><br>A principal fonte de renda da família vem de investimentos. Adicionalmente, Andréa gerencia redes sociais e edita vídeos para o YouTube, enquanto Luciano utiliza sua experiência náutica para realizar consultorias e trabalhos de manutenção de motores, complementando a receita.
<b>2. Como é a educação e a socialização das crianças a bordo do veleiro?</b><br>Leah e Ian seguem um currículo americano e, sempre que possível, frequentam escolas presenciais durante as paradas em diferentes países. O aprendizado é enriquecido pelas próprias experiências da viagem, com geografia, história e biologia sendo ensinadas de forma prática e imersiva. A socialização ocorre no contato com diversas culturas e outras famílias de velejadores.
<b>3. Quais são os maiores desafios de viver em um veleiro pelo mundo?</b><br>Os desafios incluem a adaptação a uma rotina longe da convencional, a necessidade de planejamento rigoroso para suprimentos e manutenção do barco, lidar com condições climáticas adversas, a gestão remota de trabalho e, no início, o desapego de bens materiais e da vida em terra firme. A vida a bordo exige constante resolução de problemas e resiliência.
Descubra mais sobre a inspiradora jornada da família Westphal e explore as possibilidades de uma vida sem amarras, seguindo suas aventuras nas redes sociais e canais de vídeo.
Fonte: https://g1.globo.com