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Crise climática expõe desigualdades na Baixada Santista: orla e morro em risco

Carlos Nogueira/PMS

A crise climática, antes vista como um desafio futuro, manifesta-se vigorosamente no presente, revelando impactos diretos e desiguais nas cidades brasileiras, incluindo a Baixada Santista. Fenômenos como inundações, ondas de calor e secas extremas tornam-se cada vez mais frequentes, afetando a população de maneiras distintas. Especialistas monitoram a possível intensificação do El Niño, um fenômeno climático que pode agravar secas em algumas regiões e aumentar drasticamente as chuvas em outras, como o litoral paulista. Essa perspectiva eleva o alerta para a Baixada Santista, onde as consequências da crise climática já são percebidas de forma acentuada, sobretudo entre os grupos mais vulneráveis.

A percepção imediata da crise climática na Baixada Santista

A realidade climática atual ressoa profundamente na Baixada Santista. Uma pesquisa recente, conduzida com residentes de todo o Brasil, destacou que cerca de 80% dos moradores da região já vivenciam os efeitos das mudanças climáticas, como ondas de calor intensas, inundações e períodos de estiagem prolongados. Esses eventos, antes considerados distantes, hoje fazem parte do cotidiano local. Além disso, 70% dos entrevistados expressam a crença de que o Brasil não tem dedicado a atenção necessária à proteção ambiental.

De um debate abstrato à urgência local

Esses dados transformam o caráter do debate sobre o clima. A discussão não se concentra mais na existência das mudanças climáticas, mas sim em como a sociedade e as cidades podem se adaptar e conviver com elas. Na Baixada Santista, essa convivência se traduz em desafios concretos: ressacas que avançam sobre a orla, alagamentos recorrentes em bairros de cota baixa, calor extremo que penaliza trabalhadores externos e a ameaça constante da elevação do nível do mar. A questão primordial agora é a prontidão da região para enfrentar os cenários que já se materializam.

As ramificações socioeconômicas da instabilidade climática

Muitas vezes, a relação entre meio ambiente e economia é subestimada, tratada como esferas separadas. No entanto, na prática, os fenômenos climáticos extremos têm um impacto direto e significativo na vida econômica e social da população. Secas prolongadas, por exemplo, comprometem a agricultura e elevam os preços dos alimentos, afetando diretamente o custo de vida. Inundações paralizam o transporte público e privado, atrasando deslocamentos para o trabalho e afetando a rotina de quem depende de ônibus e Veículos Leves sobre Trilhos (VLT).

O clima como catalisador de desigualdades

Além disso, ondas de calor severas sobrecarregam os sistemas de saúde, com um aumento de casos de problemas respiratórios e cardiovasculares. Isso demonstra que o clima não afeta apenas a natureza, mas interfere diretamente no orçamento familiar, na saúde pública e na qualidade de vida dos habitantes. É nesse ponto que a crise climática transcende o campo abstrato e se manifesta como um grave problema de desigualdade social, aprofundando as disparidades existentes na região.

A Baixada Santista em contraste: orla versus áreas de risco

A imagem mais comum de Santos e da Baixada Santista evoca a beleza da orla: seis quilômetros de jardins bem cuidados, edifícios icônicos e uma ciclovia movimentada à beira-mar. Contudo, essa paisagem privilegiada coexiste com uma realidade menos visível, mas igualmente presente. Nos morros e em áreas mais afastadas, a infraestrutura básica muitas vezes é precária, com drenagem deficiente, encostas sem contenção adequada e habitações construídas em zonas de alto risco.

Vulnerabilidade acentuada nas periferias e morros

Nessas áreas, uma chuva intensa, que antes seria apenas um evento climático, transforma-se em uma ameaça real de deslizamentos. Nos bairros de várzea e cota baixa, especialmente na Zona Noroeste de Santos e em partes de São Vicente, Cubatão e Guarujá, alagamentos tornaram-se uma ocorrência quase rotineira. A água invade residências, danifica bens, contamina o ambiente e força famílias a recomeçar do zero. Essa disparidade contrasta fortemente com a orla, onde os problemas como erosão costeira e ressacas são enfrentados com investimentos significativos em obras de contenção, embora caras, disponíveis.

Justiça climática: um imperativo para o desenvolvimento

A diferença não se limita à paisagem; reside na capacidade de proteção e resiliência de cada comunidade. Moradores próximos à orla geralmente contam com edifícios mais recentes, saneamento eficaz e acesso facilitado a serviços de emergência. Em contrapartida, quem vive nos morros ou em áreas periféricas enfrenta os mesmos temporais com uma rede de apoio mais frágil, menor investimento público histórico e, frequentemente, menos tempo de resposta quando o perigo se manifesta. Este cenário é um claro exemplo da justiça climática, que postula que os efeitos das mudanças climáticas não atingem a todos da mesma forma, penalizando desproporcionalmente aqueles que menos contribuíram para o problema.

O oceano sob os olhos do surf: um termômetro ambiental

A comunidade de surfistas, por sua constante interação com o mar, muitas vezes é a primeira a perceber as alterações ambientais antes mesmo de estudos formais serem publicados. Essa observação diária motivou o Instituto Ecosurf a lançar o "Raio-X Ecosurf 2024-2025", um levantamento pioneiro sobre como a comunidade do surfe percebe a crise climática, a poluição por plásticos e a saúde geral do Oceano Atlântico. O estudo, que entrevistou surfistas de 18 estados, reuniu 539 respostas válidas e mapeou 725 pontos de surfe em todo o litoral brasileiro. Na Baixada Santista, essa percepção é crucial, pois os surfistas são testemunhas diretas de mudanças nas correntes, na qualidade da água e na frequência de eventos extremos, oferecendo dados valiosos para o monitoramento e a formulação de políticas ambientais. O envolvimento dessas comunidades é fundamental para a defesa e conservação dos ecossistemas costeiros e marinhos.

Conclusão: a urgência de uma resposta integrada e justa

A crise climática na Baixada Santista não é uma ameaça distante, mas uma realidade presente que escancara as profundas desigualdades sociais e urbanas. A coexistência de uma orla estruturada e áreas periféricas vulneráveis exige um plano de ação integrado que vá além da adaptação superficial. É imperativo que as estratégias de mitigação e adaptação sejam pautadas pela justiça climática, priorizando investimentos em saneamento, contenção de encostas e infraestrutura resiliente nas comunidades mais expostas. Somente com uma abordagem equitativa e colaborativa será possível construir uma Baixada Santista mais segura, justa e preparada para os desafios impostos pelas mudanças do clima, garantindo que o direito a um ambiente saudável e seguro seja uma realidade para todos, independentemente de sua localização ou condição socioeconômica.

FAQ: Entendendo a crise climática na Baixada Santista

1. Quais são os principais impactos da crise climática na Baixada Santista?

Os principais impactos incluem ressacas intensas que causam erosão costeira, alagamentos recorrentes em áreas de cota baixa e periferias, ondas de calor extremo que afetam a saúde e a economia, e a ameaça contínua da elevação do nível do mar. Esses fenômenos afetam a infraestrutura, a saúde pública e a qualidade de vida.

2. Como a crise climática revela desigualdades na região?

A crise climática expõe desigualdades ao afetar desproporcionalmente as comunidades mais vulneráveis. Enquanto a orla conta com mais investimentos em contenção e infraestrutura, morros e bairros periféricos sofrem com drenagem inadequada, falta de contenção de encostas e menor acesso a serviços de emergência, tornando-os mais suscetíveis a deslizamentos e alagamentos.

3. O que é 'justiça climática' e como ela se aplica à Baixada Santista?

Justiça climática é o princípio de que os impactos das mudanças climáticas não devem afetar desproporcionalmente os grupos menos responsáveis por elas e que as soluções devem ser equitativas. Na Baixada Santista, isso significa priorizar investimentos e políticas de adaptação nas comunidades periféricas e de alto risco, garantindo que todos tenham a mesma capacidade de se proteger e se recuperar dos eventos climáticos extremos.

Para se aprofundar nas discussões e ações sobre a crise climática e suas desigualdades, siga as iniciativas e pesquisas de institutos de estudo socioambiental e engaje-se com as discussões locais sobre o futuro sustentável da Baixada Santista.

Fonte: https://www.juicysantos.com.br

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