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COP17 adia acordo global para combater secas em meio a impasses

© Kiara Worth/UNCCD

A 17ª Conferência das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17), sediada em Ulaanbaatar, Mongólia, encerra-se com uma decisão que ecoa preocupações globais e frustra expectativas. Embora o evento tenha reunido líderes e negociadores de todo o mundo com o objetivo primordial de fortalecer o combate à desertificação e à degradação da terra, o aguardado regime global para o <b>combate às secas</b> foi novamente adiado. Fontes próximas às negociações indicam que a esperança oficial por um consenso final se chocou com a realidade dos impasses. A ausência de um acordo definitivo sobre esta questão crítica, que afeta milhões de pessoas e ecossistemas globalmente, empurra as discussões para a COP18, prevista para 2028 no Egito, repetindo um cenário já visto na conferência anterior. Este desfecho sublinha as complexidades políticas e financeiras inerentes à cooperação internacional em desafios ambientais urgentes.

A persistência do impasse global

Oposição liderada por potências

A formação de um regime internacional vinculativo para enfrentar a crescente crise das secas encontrou forte resistência por parte de um grupo influente de nações. Os Estados Unidos e a União Europeia lideraram a oposição, argumentando contra a criação de um compromisso obrigatório que implicaria gastos externos significativos e a adesão a mecanismos de financiamento. Países sul-americanos como Argentina, Chile e Paraguai também compartilharam dessa postura. A recusa em se comprometer com um acordo mandatório reflete a preferência por abordagens voluntárias, bem como preocupações com as implicações econômicas e a soberania nacional sobre as políticas hídricas. A União Europeia, em particular, tem enfrentado suas próprias crises de seca, o que pode justificar a relutância em assumir novos encargos financeiros em nível global.

A posição do Brasil e mediadores

O Brasil, apesar de se posicionar a favor da criação de um regime robusto para o combate às secas, reconheceu a inviabilidade de um consenso imediato. Diante do cenário de forte oposição, a estratégia brasileira, em conjunto com a Arábia Saudita, foi a de mediar os debates para garantir que o tema permanecesse na agenda futura da UNCCD, em vez de ser completamente excluído. Essa mediação foi crucial, pois representantes dos Estados Unidos, em um momento das negociações, chegaram a pleitear a retirada total do assunto dos documentos finais da COP17, enquanto países africanos insistiam na criação efetiva e imediata do mecanismo. A solução encontrada foi a de apresentar uma "decisão procedimental", que formaliza o adiamento e transfere a responsabilidade para a próxima conferência.

A demanda africana e o contexto histórico

Consequências da escassez hídrica

A proposta de um mecanismo multilateral para enfrentar as secas é defendida vigorosamente pelas nações africanas há, pelo menos, três conferências consecutivas. Historicamente e atualmente, o continente africano é um dos mais impactados pela escassez hídrica, pela desertificação e pela expansão de áreas áridas. As secas severas resultam em perdas agrícolas massivas, insegurança alimentar, deslocamento populacional, conflitos por recursos e um enorme custo humano e econômico. Para esses países, a urgência de um sistema coordenado globalmente, com apoio financeiro e técnico, é uma questão de sobrevivência e desenvolvimento. Eles argumentam que a natureza transfronteiriça das secas exige uma resposta coletiva, não apenas esforços nacionais isolados.

Limitações dos mecanismos existentes

Os defensores do regime de secas, em sua maioria países em desenvolvimento e nações africanas, apontam que os mecanismos internacionais de financiamento existentes, como o Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF), são estruturados sob o tema mais amplo da "degradação da terra". Embora a seca seja uma das causas da degradação, eles argumentam que o GEF não oferece a especificidade e o foco necessários para lidar com a complexidade e a natureza multifacetada das secas. A necessidade de ajuda financeira é crucial para que os países mais vulneráveis possam implementar estratégias de antecipação, mitigação e recuperação dos eventos extremos, que demandam investimentos em infraestrutura, tecnologias de gestão hídrica e sistemas de alerta precoce.

Dimensões financeiras e geopolíticas

Resistência a compromissos obrigatórios

A principal barreira para o avanço do acordo reside na resistência dos países mais desenvolvidos em se comprometerem com um acordo financeiramente obrigatório. A adesão voluntária é a opção preferida por nações como os Estados Unidos e os membros da União Europeia, que veem nos compromissos mandatórios um fardo econômico adicional. Em um cenário global marcado por crises econômicas, inflação e desafios orçamentários internos, a perspectiva de destinar recursos substanciais para fundos internacionais de combate à seca encontra forte oposição. A União Europeia, por exemplo, tem enfrentado secas históricas em seu próprio território nos últimos anos, o que adiciona uma camada de complexidade à sua capacidade e disposição de financiar esforços em outras regiões.

Tensões nas agendas multilaterais

Além das questões financeiras diretas, os impasses na COP17 são também um reflexo de um contexto geopolítico mais amplo e desfavorável. Observadores e negociadores indicam que alguns países, notadamente os Estados Unidos, têm demonstrado uma tendência a enfraquecer ou travar agendas multilaterais desde o início da conferência. Essa postura pode ser parte de uma estratégia mais ampla para redefinir o engajamento com instituições e acordos globais, privilegiando abordagens bilaterais ou menos vinculativas. Em um ambiente internacional já polarizado, a cooperação em temas ambientais complexos como as secas torna-se um desafio ainda maior, onde a busca por consenso é constantemente testada por interesses nacionais divergentes.

Perspectivas e o futuro do combate às secas

O otimismo cauteloso da UNCCD

Apesar do adiamento, autoridades envolvidas nas negociações expressam um otimismo cauteloso. Andrea Meza Murillo, secretária executiva adjunta da UNCCD, órgão da ONU responsável pela conferência, reconheceu as dificuldades, mas manteve a esperança. "Estamos em um momento em que o túnel está escuro, mas acho que sempre haverá uma luz no fim dele. Temos esperança e estamos trabalhando muito para isso", afirmou Meza. Ela complementou sua visão ao enfatizar a importância da pressão social, da sociedade civil organizada, das ONGs e do setor privado para impulsionar a agenda quando os governos hesitam. Contudo, ela também admitiu que o atual contexto geopolítico dificulta a obtenção de resultados ambiciosos em negociações.

A urgência de políticas permanentes

Os relatórios da UNCCD reforçam a alarmante realidade do aumento da frequência, intensidade e alcance espacial das secas em quase 30% desde 2000, com eventos recentes na Europa, África, Ásia e América Latina servindo como prova. Daniel Tsegai, coordenador do grupo de trabalho sobre seca da UNCCD, defende que a abordagem tradicional de tratar a seca como um desastre imprevisível está ultrapassada. Ele argumenta que os países devem instituir políticas permanentes e proativas para atuar <i>antes</i>, <i>durante</i> e <i>após</i> os períodos de eventos extremos. Isso inclui a implementação de sistemas de alerta precoce, gestão sustentável da água, práticas agrícolas resilientes e planejamento territorial adaptativo, visando a construção de resiliência a longo prazo.

Perguntas frequentes (FAQ)

O que é a COP17 e qual seu objetivo principal?

A COP17 é a 17ª Conferência das Nações Unidas de Combate à Desertificação, um encontro global que reúne representantes de diversos países para discutir e implementar estratégias de combate à desertificação, degradação da terra e secas, com o objetivo de promover a gestão sustentável dos recursos naturais.

Por que o acordo global sobre secas foi adiado?

O acordo foi adiado devido a impasses significativos, principalmente a oposição de países como os Estados Unidos e a União Europeia. Eles resistem a compromissos financeiramente obrigatórios, preferindo adesão voluntária, e argumentam que a criação de um novo regime adicionaria encargos e burocracia desnecessários, em um contexto geopolítico de enfraquecimento de agendas multilaterais.

Qual a posição dos países africanos sobre o regime de secas?

Os países africanos são os maiores defensores da criação de um regime global para secas. Eles argumentam que são historicamente os mais afetados pela escassez hídrica e que os mecanismos financeiros existentes são insuficientes. Requerem um mecanismo multilateral específico, com ajuda financeira, para que possam antecipar e se recuperar de eventos extremos.

Quais as implicações do adiamento para o futuro?

O adiamento significa que o mundo continuará sem um regime global coordenado para enfrentar as secas por pelo menos mais quatro anos, até a COP18. Isso pode exacerbar os impactos das secas, especialmente em regiões vulneráveis, e sublinha a dificuldade de se chegar a acordos ambiciosos em um contexto geopolítico complexo. A pressão recai sobre iniciativas nacionais e regionais, e sobre a capacidade da sociedade civil de impulsionar a agenda.

Para aprofundar seu conhecimento sobre as estratégias de combate à desertificação e as próximas etapas das negociações climáticas, explore outros artigos e recursos em nosso portal, e mantenha-se informado sobre como a cooperação global pode moldar o futuro do nosso planeta.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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