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Brasil registra 84,7 mil desaparecidos em 2025, um aumento preocupante

© Paulo Pinto/Agencia Brasil

O ano de 2025 marcou um preocupante recorde no Brasil, com o registro de 84.760 casos de pessoas desaparecidas em todo o país. Essa estatística alarmante equivale a uma média de 232 sumiços diários, evidenciando uma escalada persistente do problema. O número representa um aumento de 4,1% em relação a 2024, quando 81.406 desaparecimentos foram contabilizados, e supera até mesmo os índices de 2019, ano em que a Política Nacional de Busca de Pessoas Desaparecidas foi instituída. A crescente incidência de desaparecimentos ressalta a urgência de aprimorar as estratégias de localização e investigação, bem como de fortalecer a cooperação entre as diversas esferas do governo e a sociedade civil para enfrentar essa complexa questão humanitária e de segurança pública.

A escalada do desaparecimento de pessoas no Brasil

Dados recentes do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp) revelam uma tendência de alta no número de desaparecimentos no Brasil. Em 2025, os 84.760 registros representaram não apenas um aumento significativo em relação ao ano anterior, mas também um patamar superior ao observado em 2019 (81.306 ocorrências), ano da criação da Política Nacional de Busca de Pessoas Desaparecidas. Desde 2015, quando 75.916 casos foram contabilizados, a série histórica mostra uma trajetória de crescimento constante, com exceção de um breve período de declínio.

Impacto da pandemia e subnotificação

As únicas retrações nesse panorama de ascensão ocorreram em 2020 (63.151) e 2021 (67.362). Especialistas atribuem essa queda momentânea às restrições impostas pela pandemia de covid-19. Segundo Simone Rodrigues, coordenadora do Observatório de Desaparecimento de Pessoas no Brasil (ObDes) da Universidade de Brasília (UnB), o período de isolamento social e a dificuldade de acesso às delegacias e outros órgãos de registro contribuíram para uma ampliação da subnotificação. Ou seja, menos pessoas conseguiam ou se sentiam seguras para registrar os desaparecimentos, mascarando a real dimensão do problema naquele contexto.

Estratégias de busca e pessoas localizadas

Paralelamente ao aumento nos casos de desaparecimento, o número de pessoas localizadas também registrou crescimento notável. Em 2020, 37.561 indivíduos dados como desaparecidos foram encontrados. Esse total saltou para 56.688 em 2025, configurando uma alta de 51% no período e um acréscimo de 2% em comparação com 2024, quando 55.530 pessoas foram localizadas. Esse progresso, conforme Rodrigues, reflete não apenas o volume crescente de ocorrências, mas também um aprimoramento nas estratégias e ferramentas empregadas nas buscas.

O papel da tecnologia e cooperação interinstitucional

A melhoria nos resultados de localização pode ser creditada a um maior empenho na promoção da interoperabilidade de dados e na comunicação entre as diversas instituições envolvidas, incluindo órgãos federais, estaduais e municipais. A troca eficiente de informações e a utilização de tecnologias avançadas para cruzamento de dados são cruciais para otimizar os esforços de busca, permitindo uma resposta mais rápida e coordenada. Contudo, apesar dos avanços, o desafio de integrar plenamente os sistemas e as bases de dados permanece como um obstáculo significativo a ser superado para maior eficiência.

A complexa relação entre desaparecimentos e crimes não esclarecidos

A coordenadora do ObDes/UnB alerta que os dados oficiais, por mais alarmantes que sejam, não capturam a total complexidade do fenômeno do desaparecimento. Para Simone Rodrigues, muitos sumiços estão intrinsecamente ligados a crimes que permanecem sem esclarecimento, camuflando a verdadeira natureza violenta por trás dessas ocorrências. As dinâmicas são diversas e frequentemente envolvem múltiplas formas de violência, como feminicídio, tráfico de pessoas, exploração em trabalho análogo à escravidão, LGBTQfobia e a ocultação de cadáveres. Essa interconexão exige uma abordagem investigativa mais aprofundada e multidisciplinar.

Casos emblemáticos e a amplitude do problema

Um exemplo trágico dessa realidade é o caso da corretora Daiane Alves de Souza, de 43 anos, desaparecida em Caldas Novas (GO) em dezembro de 2024 e cujo corpo foi encontrado em fevereiro de 2025, após confissão do síndico de seu prédio. Este caso ilustra como um desaparecimento pode, na verdade, ser a fase inicial de um crime hediondo. Além disso, Rodrigues destaca a questão da subnotificação em grupos vulneráveis, onde parentes ou conhecidos muitas vezes evitam registrar ocorrências por medo de retaliação em contextos de atuação de milícias ou grupos criminosos, ou por falta de acesso e confiança nas autoridades, como é o caso de indígenas e pessoas em situação de rua, que frequentemente não registram boletins.

Política Nacional: avanços lentos e desafios na implementação

Instituída em 2019, a Política Nacional de Busca de Pessoas Desaparecidas visava estabelecer diretrizes e ações integradas para agilizar a localização de indivíduos, promovendo a cooperação entre segurança, saúde e assistência social. No entanto, quase sete anos após sua sanção, a política é descrita por Simone Rodrigues como ainda “engatinhando” no país. Sua implementação tem sido gradual e já evidencia a necessidade de ajustes. Um dos pilares da política, o Cadastro Nacional de Pessoas Desaparecidas, por exemplo, só foi efetivamente criado em 2025 e enfrenta baixa adesão por parte dos estados, limitando seu potencial.

Fragmentação de dados e a necessidade de integração

A Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp) informa que apenas 12 das 27 unidades da federação (Acre, Alagoas, Amapá, Amazonas, Bahia, Maranhão, Piauí, Rio Grande do Norte, Rondônia, Roraima, Sergipe e Tocantins) integram seus registros de desaparecimentos e localizações ao Cadastro Nacional. Essa fragmentação de informações é um entrave crítico. A ausência de uma carteira de identidade nacional unificada e a setorização dos dados biométricos por estado dificultam a comunicação e o cruzamento de informações essenciais entre delegacias e Ministérios Públicos de diferentes regiões. A burocracia para identificar um corpo localizado, que exige o envio de digitais para todas as 27 unidades federativas, é um sintoma dessa desarticulação que retarda a elucidação de muitos casos.

Conclusão: um chamado à ação coordenada

O cenário dos desaparecimentos no Brasil em 2025, com 84.760 casos registrados, revela uma complexidade que vai muito além dos números. Ele expõe a fragilidade das políticas públicas existentes e a urgência de uma integração mais efetiva entre as esferas de segurança, justiça e assistência social. A subnotificação, a ligação intrínseca com crimes graves e a fragmentação de dados são desafios persistentes que clamam por uma revisão e fortalecimento da Política Nacional de Busca de Pessoas Desaparecidas. É fundamental que se invista em tecnologias de informação, capacitação de equipes e, principalmente, na construção de um sistema nacional de identificação e registro de casos que garanta maior agilidade e transparência nas buscas, oferecendo respostas mais eficazes às famílias em luto e contribuindo para a redução da impunidade associada a esses trágicos eventos.

FAQ

<b>1. O que significa a alta nos desaparecimentos em 2025?</b><br>Em 2025, o Brasil registrou 84.760 desaparecimentos, uma média de 232 por dia. Este número é 4,1% superior ao de 2024 e indica uma tendência preocupante de escalada do problema, superando inclusive os índices de 2019, quando a Política Nacional de Busca de Pessoas Desaparecidas foi criada.

<b>2. A Política Nacional de Busca de Pessoas Desaparecidas tem sido eficaz?</b><br>A política, criada em 2019, ainda é considerada incipiente na implementação. Um de seus principais instrumentos, o Cadastro Nacional de Pessoas Desaparecidas, foi criado apenas em 2025 e enfrenta baixa adesão dos estados (apenas 12 das 27 unidades da federação estão integradas), limitando sua eficácia e a interoperabilidade de dados.

<b>3. Por que os números oficiais podem não refletir a realidade?</b><br>Especialistas apontam que os dados oficiais sofrem de subnotificação significativa. Muitos desaparecimentos estão ligados a crimes não esclarecidos, como feminicídio ou tráfico de pessoas, e há relutância em registrar ocorrências por medo, falta de acesso ou confiança, especialmente entre grupos vulneráveis como indígenas, pessoas em situação de rua ou em áreas dominadas por grupos criminosos.

Para mais informações sobre as ações e desafios na busca por desaparecidos e o impacto dessas estatísticas na sociedade brasileira, explore outros conteúdos aprofundados em nosso portal.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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