A Organização das Nações Unidas reconhece o acesso à água potável e ao saneamento básico como direitos humanos inalienáveis, pilares para uma vida digna e para a salvaguarda da saúde pública. Contudo, na Baixada Santista, uma questão fundamental ecoa com urgência nas ruas: a conveniência e os riscos de confiar um serviço tão vital, como o abastecimento de água, à gestão de uma empresa privada cujo objetivo primordial é o lucro. Esta indagação deixou o campo da retórica para se materializar em desafios concretos no cotidiano dos moradores da orla e de outras regiões. A recente privatização da Sabesp e a subsequente reincidência de problemas no fornecimento de água potável na Baixada Santista têm alimentado um intenso debate sobre o futuro do saneamento e a responsabilidade social corporativa.
A volta de um problema persistente: Falta d’água na Baixada Santista
Áreas antes imunes agora sofrem
Pela primeira vez em aproximadamente 40 anos, bairros tradicionalmente considerados privilegiados na orla de Santos, como Gonzaga, Boqueirão e Pompéia, voltaram a enfrentar a escassez de água e a baixa pressão nas torneiras. Este é um cenário que parecia definitivamente superado desde a década de 1980, quando significativos investimentos em infraestrutura hídrica conseguiram estabilizar o abastecimento na Zona Leste da cidade. A reincidência desses problemas em áreas antes imunes choca os moradores, que haviam desfrutado de décadas de estabilidade no fornecimento, percebendo a situação atual como um retrocesso preocupante.
Desigualdade histórica e o cenário atual
É crucial notar que a realidade de estabilidade no abastecimento nunca foi uniforme em toda a Baixada Santista. Regiões como a Zona Noroeste, os Morros de Santos e cidades vizinhas como Guarujá e São Vicente sempre lidaram, de forma recorrente, com interrupções no fornecimento de água. Durante décadas, essa desigualdade no acesso permaneceu em grande parte invisível para parcela da população da orla, que raramente sentia o impacto direto das falhas. Agora, a situação mudou drasticamente. Durante o verão recente, a falta d’água e as quedas de pressão se tornaram uma rotina em diversos pontos da Baixada Santista, inclusive nos bairros antes não afetados. Coincidentemente, ou não, esses problemas se intensificaram após a conclusão do processo de privatização da Sabesp, suscitando questionamentos sobre a gestão do serviço.
A privatização da Sabesp: Contexto e implicações
Os detalhes da operação milionária
Em 23 de julho de 2024, o governo do estado de São Paulo, sob a gestão de Tarcísio de Freitas, finalizou o processo de privatização da Sabesp, empresa responsável pelo abastecimento de cerca de 28 milhões de pessoas no estado. Com a operação, a participação acionária do estado foi reduzida para 18%. Na sequência, a Equatorial Participações adquiriu uma fatia de 15% das ações da companhia, enquanto outros 17% foram negociados com investidores do mercado financeiro. No total, a operação gerou uma arrecadação de R$ 14,8 bilhões para os cofres estaduais. Deste montante, mais de R$ 4 bilhões foram direcionados para a criação de um fundo de garantias ao consumidor. O governo estadual prometeu subsídios tarifários e a realização de obras de infraestrutura até 2029, visando aprimorar os serviços. Contudo, a magnitude desses números parece destoar da realidade das torneiras secas que muitos moradores da Baixada Santista têm enfrentado.
As explicações da Sabesp para a crise
A Sabesp, por sua vez, atribui a crise de abastecimento ocorrida entre o fim de 2025 e o início de 2026 a uma série de fatores. Segundo a companhia, a região enfrentou uma estiagem severa e prolongada, a qual foi combinada com um fluxo recorde de turistas durante o período do Réveillon. Estima-se que quase 1 milhão de veículos tenham descido a serra neste período, resultando em um aumento de mais de 60% no consumo de água em alguns municípios da região. Além disso, a empresa mencionou que temporais intensos afetaram a operação das estações de tratamento. No Guarujá, a produção da Estação Jurubatuba teria caído pela metade. Simultaneamente, chuvas torrenciais impactaram a ETA Mambu-Branco, que é vital para o abastecimento de Itanhaém, Mongaguá, Peruíbe, Praia Grande e parte de São Vicente. Mesmo dias após a normalização das condições climáticas, diversas cidades da Baixada Santista continuavam a registrar falhas no fornecimento. Em nota pública, a empresa expressou “sinceras desculpas pelos transtornos” e orientou a população a “usar a água com consciência” e “evitar desperdícios”.
O debate político e social em torno do saneamento
A polarização na assembleia e o cenário eleitoral
A privatização da Sabesp não foi um consenso e dividiu opiniões na Assembleia Legislativa de São Paulo. Deputados, como Caio França, manifestaram-se abertamente contra a medida, levantando preocupações sobre os impactos no serviço público e na população. O tema é tão sensível que deve se tornar um dos pontos centrais de debate nas eleições de 2026. Márcio França, por exemplo, aparece como um possível adversário do atual governador Tarcísio de Freitas, e a gestão da água e do saneamento básico tende a ocupar um papel de destaque nas campanhas eleitorais, polarizando o eleitorado e exigindo propostas claras dos candidatos.
Indignação popular e o direito fundamental à água
Nos comentários de reportagens, nas redes sociais e nas conversas cotidianas nas ruas, a frustração dos moradores da Baixada Santista é palpável e generalizada. A indignação se espalha por toda a região, reforçando a premissa de que o acesso à água potável transcende disputas políticas e partidárias, sendo um direito humano inegociável, e não uma mercadoria. Quando a lógica de mercado se sobrepõe à garantia de direitos fundamentais, a população, especialmente a mais vulnerável, é quem arca com o ônus. Enquanto as ações da Sabesp registraram uma valorização de mais de 140% desde o fim de 2021, beneficiando acionistas e investidores, os moradores da Baixada Santista se veem novamente às voltas com um problema de abastecimento que julgavam superado há décadas. A pergunta crucial permanece: os R$ 14,8 bilhões arrecadados e as promessas de investimento são suficientes para justificar a entrega da gestão da água, um bem essencial à vida, a uma empresa privada? A resposta para essa questão complexa parece estar nas torneiras secas de Santos, Guarujá e demais municípios da região.
Conclusões e perspectivas futuras
A crise hídrica que assola a Baixada Santista após a privatização da Sabesp coloca em xeque a delicada balança entre a eficiência econômica e o direito social ao acesso à água. Embora as justificativas da concessionária para os problemas apontem para fatores climáticos e o aumento de demanda, a coincidência temporal com a mudança de gestão gera desconfiança e alimenta o debate sobre a real capacidade e responsabilidade de uma empresa privada em garantir um serviço essencial. A situação atual na Baixada Santista serve como um estudo de caso crítico, ilustrando os desafios e as tensões inerentes à privatização de bens públicos vitais. O futuro do abastecimento de água na região dependerá não apenas dos investimentos prometidos, mas, sobretudo, de uma supervisão rigorosa e da capacidade de resposta às necessidades da população, garantindo que o direito fundamental à água não seja comprometido pela busca pelo lucro.
Perguntas frequentes (FAQ)
O que significa a privatização da Sabesp?
A privatização da Sabesp refere-se à venda de parte das ações da empresa pelo governo do estado de São Paulo a investidores privados, reduzindo a participação estatal e tornando a companhia predominantemente privada. Isso ocorreu em 23 de julho de 2024.
Quais as principais causas apontadas para a recente falta d’água na Baixada Santista?
A Sabesp atribui os problemas a uma combinação de fatores: estiagem severa, aumento recorde de turistas e consumo de água durante o verão, e temporais que afetaram estações de tratamento.
Quais áreas da Baixada Santista foram afetadas pelos problemas de abastecimento?
Historicamente, Zona Noroeste, Morros, Guarujá e São Vicente enfrentavam interrupções. Recentemente, bairros da orla de Santos como Gonzaga, Boqueirão e Pompéia, que não sofriam com a falta d’água há 40 anos, também foram impactados.
A privatização da Sabesp trouxe benefícios aos cofres públicos?
Sim, a operação rendeu R$ 14,8 bilhões aos cofres estaduais, dos quais mais de R$ 4 bilhões foram destinados a um fundo de garantias ao consumidor, com promessas de subsídios tarifários e obras até 2029.
Para se aprofundar nas discussões sobre saneamento e seus impactos em nossa sociedade, mantenha-se informado sobre os desdobramentos desta crucial questão e participe ativamente do diálogo sobre o futuro do abastecimento de água em sua comunidade.