Tem algo de especial no ar de Santos em 2 de novembro. Talvez seja a brisa do mar que parece carregar memórias, ou o silêncio diferente que toma conta das ruas movimentadas. O Dia de Finados sempre me faz pensar em ausências – não apenas de pessoas, mas de momentos, lugares e versões de nós mesmos que ficaram para trás.
De São Vicente para baixo, tudo é Sul
Quando cheguei em Santos, em 2006, era “o gaúcho”. Engraçado como um sotaque do interior paulista, lá do sul do estado, pode soar como gaúcho para quem vive no litoral. O jeito de falar denunciava que eu era de outro lugar antes mesmo que eu abrisse a boca para me apresentar. Lembro do sorriso das pessoas ao perceberem aquele sotaque diferente, tão distante do “tu” dos santistas. Era estranho, era novo, era assustador. Mas Santos tem isso: ela não te rejeita por ser diferente. Ela te abraça, te transforma, te faz dela.
Pelo menos foi assim comigo.
Onze anos. Mais de uma década entre os canais, as praias, o Gonzaga, o centro histórico. Foi em Santos que deixei de ser apenas “o gaúcho” para me tornar quem eu sou. Me formei, construí amizades que atravessam anos e quilômetros, aprendi a amar o cheiro de maresia misturado com o aroma de café que ainda paira pela cidade portuária.
A Saudade das Coisas Pequenas
No Dia de Finados, a gente costuma lembrar de quem se foi. Mas existe uma saudade silenciosa, menos óbvia, que dói de um jeito diferente: a saudade dos lugares que mudaram tanto que já não existem mais como eram.
Sinto falta daquela Santos de 2006 a 2017. Das praias menos cheias, dos botecos que conheciam meu nome, das esquinas onde construí histórias que só meus amigos de então entendem. Sinto falta de caminhar pela Ponta da Praia e Aparecida – e reconhecer rostos. De sentar no calçadão do canal 6, ouvindo Charlie Brown Jr. e ver o sol se pôr sem pressa, sem pensar em desenvolvimento urbano ou especulação imobiliária.
O Preço do Progresso
É difícil ver sua cidade mudar. Santos cresceu, modernizou-se, desenvolveu-se – e eu entendo a necessidade disso. Cidades são organismos vivos; elas não podem (e não devem) permanecer estáticas. Mas há uma tristeza inevitável quando você volta e não reconhece mais aquele pedacinho de calçada onde teve sua primeira conversa de madrugada, ou quando descobre que o restaurante onde comemorou formaturas virou um prédio espelhado.
O desenvolvimento é necessário, eu sei. Santos precisa crescer, atrair investimentos, melhorar a infraestrutura. Mas às vezes me pego pensando: a que custo? Quantas memórias precisam ser demolidas para que novos edifícios subam?
Santos: A Cidade que Te Transforma
Existe um ditado que diz que você nunca entra no mesmo rio duas vezes. Com Santos é parecido. Cada vez que volto – e volto sempre – encontro uma cidade diferente. Mas também me encontro diferente.
Santos me ensinou sobre amizade verdadeira, aquela que sobrevive à distância e ao tempo. Os amigos que fiz aqui são os que ainda me ligam para perguntar como estou, que me visitam onde quer que eu more, que guardam histórias comuns que só nós entendemos completamente.
A cidade me ensinou sobre pertencimento. Não é onde você nasce que define quem você é, mas onde você escolhe construir sua vida. E eu escolhi Santos. Ela me escolheu de volta.
O Eterno Retorno
No fundo, eu sei a verdade que tento evitar: eu nunca realmente saí de Santos. Meu corpo pode morar em outro lugar, mas uma parte de mim ainda caminha pela orla às seis da manhã, ainda estuda até tarde nas bibliotecas da cidade, ainda ri em rodas de conversa que só existem na memória.
E é por isso que quero voltar. Não para encontrar aquele Santos de 2006 – ele não existe mais, e tudo bem. Quero voltar para construir novos Santoses, novas memórias, para fazer parte do que a cidade está se tornando. Porque Santos não é só o passado; ela é também o futuro que ainda podemos construir juntos.
A Saudade que Fica
Neste 2 de novembro, enquanto as pessoas visitam cemitérios e acendem velas para quem se foi, eu acendo uma vela diferente: para as versões de mim e de Santos que não existem mais, mas que moldaram tudo o que somos hoje.
A saudade não precisa ser apenas dor. Ela pode ser gratidão disfarçada. Gratidão por ter vivido momentos tão bons que sua ausência dói. Gratidão por ter encontrado uma cidade que me transformou de “o gaúcho” – mesmo sem ser do Rio Grande – em alguém que carrega Santos no peito, onde quer que vá.
Santos segue mudando, como sempre mudou. E eu também. Mas há algo que permanece intocado: o amor por essa cidade que me acolheu quando eu era um estranho de sotaque diferente, e que me transformou em um eterno morador, mesmo quando estou longe.
A saudade que mora em Santos não é sobre o que perdemos. É sobre o que ganhamos e nunca mais poderemos perder: a certeza de que tivemos o privilégio de chamar essa cidade de lar.
Você também tem uma história de saudade com Santos? Compartilhe nos comentários suas memórias da cidade que te transformou.