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CNJ lança estratégia cultural para humanização do sistema prisional

© Rovena Rosa/Agência Brasil

O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) marcou um passo significativo em direção à ressocialização e dignidade no sistema prisional brasileiro com o lançamento da estratégia "Horizontes Culturais". O evento inaugural, realizado no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, nesta sexta-feira (10), destacou a arte e a educação como ferramentas essenciais para a transformação de vidas. A iniciativa visa fomentar atividades culturais, educativas e artísticas em diversas linguagens – como artes plásticas, dança, música, cinema e fotografia – no sistema prisional até 2027. Este programa ambicioso não apenas busca humanizar o ambiente carcerário, mas também reconhece o potencial da cultura para reconstruir trajetórias e oferecer novas perspectivas a pessoas privadas de liberdade, egressos e seus familiares, além de servidores penais e profissionais da cultura. O "Horizontes Culturais" é um pilar fundamental na visão de um sistema penal mais justo e eficaz, que transcende a punição e investe na recuperação integral do indivíduo, preparando-o para o retorno à sociedade.

Horizontes culturais: uma nova perspectiva para o encarceramento

A arte como ferramenta de ressocialização e reflexão

A estratégia "Horizontes Culturais" coloca a arte no centro do processo de ressocialização, oferecendo um caminho para a expressão e o desenvolvimento pessoal. Um exemplo inspirador é Átila, que aos 25 anos cursa Belas Artes na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Sua obra, uma pintura de um menino negro vestido com beca, simboliza a ausência de sua própria fotografia de formatura do primário. Feita durante uma residência artística para familiares e egressos do sistema prisional, a pintura é uma analogia sutil às grades, sugerindo a importância da educação como via de liberdade. A iniciativa busca replicar essas experiências transformadoras, incentivando a criação e a participação em diversas formas de arte, permitindo que os indivíduos processem o passado, enfrentem o presente e projetem um futuro mais digno e promissor. A atriz e poeta Elisa Lucinda, participante do evento, enfatizou essa visão, descrevendo o sistema prisional como uma "porta aberta para a dignidade" e um espaço para a "reconstrução do ser", especialmente para aqueles que historicamente enfrentam limitações e preconceitos.

O papel do estado na garantia de direitos e dignidade

O lançamento da estratégia "Horizontes Culturais" contou com a presença do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, que sublinhou o compromisso do estado com a garantia de direitos, mesmo em "complexas situações da vida social". Em seu discurso, Fachin ressaltou que "investir em educação, cultura, oportunidades e reconstrução de trajetórias não é ser ingênuo, se omitir diante da criminalidade ou fragilizar o direito à segurança pública". Pelo contrário, trata-se de "estimular o pensamento crítico, a alteridade, a autonomia e a possibilidade de sonhar para si outros lugares que não aqueles historicamente demarcados". O ministro relembrou que o programa está inserido no Plano Pena Justa, um conjunto de políticas públicas que surgiu em resposta ao reconhecimento, pelo próprio STF em 2023, de violações massivas de direitos no sistema prisional. Essa perspectiva reforça que a cultura e a educação são direitos fundamentais e ferramentas poderosas para a humanização e a redução da reincidência criminal, alinhando-se a uma visão de justiça restaurativa e social.

Detalhes e abrangência da iniciativa do CNJ

Metas e público-alvo da estratégia

A estratégia "Horizontes Culturais" tem metas claras e um público-alvo abrangente. Até 2027, o CNJ pretende consolidar a oferta de atividades culturais, educativas e artísticas em todo o sistema prisional brasileiro. Essa experiência culminará na criação de um Plano Nacional de Cultura para o Sistema Prisional, que incluirá o estabelecimento de um calendário nacional anual de ações, garantindo a continuidade e a expansão das iniciativas. O foco principal recai sobre as pessoas privadas de liberdade, mas a abrangência se estende a egressos do sistema prisional, como Átila, seus familiares, servidoras e servidores penais, e profissionais da cultura que atuarão como mediadores e instrutores. Essa abordagem multifacetada visa criar uma rede de apoio e transformação que perpassa o período de encarceramento e se estende à vida em liberdade, reconhecendo a interconexão entre esses diferentes grupos para uma ressocialização efetiva e duradoura. A inclusão de familiares e egressos é crucial para reconstruir laços sociais e preparar o indivíduo para o retorno à comunidade.

O cenário prisional brasileiro e a urgência da cultura

O contexto prisional brasileiro torna a estratégia "Horizontes Culturais" ainda mais urgente e relevante. O país possui cerca de 700 mil pessoas encarceradas, conforme dados atualizados da Secretaria Nacional de Políticas Penais. A maioria dessa população é composta por homens de até 34 anos, pretos e pardos, frequentemente envolvidos no tráfico de drogas ou em crimes contra o patrimônio, como roubos e furtos. Um dado alarmante é que aproximadamente três em cada dez detentos ainda não passaram por um julgamento, sendo presos temporários. Essa realidade de superpopulação, condições insalubres e a predominância de grupos vulneráveis sublinha a necessidade premente de intervenções que vão além da mera contenção. A cultura e a educação emergem como antídotos poderosos para a desumanização, oferecendo oportunidades de aprendizado, desenvolvimento de habilidades e, acima de tudo, a restauração da dignidade e da esperança em um ambiente muitas vezes marcado pela desesperança e pelo abandono. A iniciativa do CNJ busca, assim, não apenas preencher lacunas, mas construir pontes para um futuro mais equitativo.

Impacto transformador: histórias que inspiram

O testemunho de Átila: preenchendo ausências com arte

A história de Átila é um testemunho vívido do poder transformador da arte. Sua pintura, retratando um menino negro de cinco ou seis anos em beca, preencheu uma lacuna pessoal: a ausência de uma fotografia de sua formatura no primário. Hoje, aos 25 anos, enquanto cursa Belas Artes na UFRJ, ele revela que a arte se tornou um veículo para "passar a limpo o passado e projetar o futuro". A "grade" que ele insere sutilmente na obra não é apenas uma representação literal, mas uma poderosa metáfora que conecta as grades da escola às da prisão, destacando a educação como um libertador fundamental. A residência artística que lhe permitiu criar essa obra é o cerne do que o programa "Horizontes Culturais" busca expandir: oportunidades para que indivíduos, afetados pelo sistema prisional, encontrem na expressão artística uma forma de autoconhecimento, superação e redefinição de suas identidades. O caso de Átila demonstra que o investimento em cultura não é um luxo, mas uma necessidade para a reconstrução de vidas.

Mateus de Souza Silva: a fome e o palco como redenção

Mateus de Souza Silva, de 30 anos, atualmente cumprindo pena em regime semiaberto em Rondônia, emocionou a audiência com sua performance no espetáculo teatral "Bizarrus". Seu monólogo, que evocou a fome e a perda do irmão aos sete anos, revelou a dor e a culpa que o marcaram. "Comida. Era tudo muito pouco. Eu queria mais do que pedir esmolas e ser humilhado e não posso negar que a fome foi a marca registrada da minha dor e culpa", declamou. Mateus, que antes do projeto teatral desenvolvido pela Associação Cultural e de Desenvolvimento do Apenado e Egresso (ACDEA) nunca havia pisado em uma sala de espetáculo, encontrou no palco uma nova voz e propósito. "A nossa história é transformada por essa experiência", completou Souza Silva, que hoje cria, sozinho, a filha de 7 anos. Sua vivência é um exemplo concreto de como as iniciativas culturais no sistema prisional podem não apenas revelar talentos, mas também oferecer catarse, promover a autoexpressão e reconstruir a autoestima, abrindo caminhos para uma vida nova e um futuro com mais dignidade.

Conclusão

A estratégia "Horizontes Culturais" do Conselho Nacional de Justiça representa um avanço crucial na abordagem da questão prisional no Brasil. Ao priorizar a cultura, a arte e a educação, o CNJ não apenas cumpre um mandamento constitucional de garantia de direitos, mas também investe em um modelo de justiça mais humanizado e eficaz. As histórias de Átila e Mateus de Souza Silva são poderosos exemplos de como a arte pode ser um catalisador para a ressocialização, a dignidade e a transformação de trajetórias. A iniciativa, que visa se consolidar até 2027 com a criação de um Plano Nacional de Cultura para o Sistema Prisional, projeta um futuro onde as grades não signifiquem o fim da esperança, mas sim um espaço para a reconstrução de seres humanos. Ao fomentar o pensamento crítico, a alteridade e a autonomia, o "Horizontes Culturais" busca romper ciclos de criminalidade e oferecer caminhos legítimos para a reintegração social, construindo uma sociedade mais justa e inclusiva para todos.

Perguntas frequentes (FAQ)

<b>1. O que é a estratégia Horizontes Culturais do CNJ?</b><br>É uma iniciativa do Conselho Nacional de Justiça para fomentar atividades culturais, educativas e artísticas (como artes plásticas, dança, música, cinema e fotografia) no sistema prisional brasileiro, com o objetivo de humanizar e ressocializar pessoas privadas de liberdade.

<b>2. Quem são os principais beneficiários da iniciativa Horizontes Culturais?</b><br>Os principais beneficiários incluem pessoas privadas de liberdade, egressos do sistema prisional, seus familiares, servidores penais e profissionais da cultura envolvidos nas atividades.

<b>3. Qual é a meta de longo prazo da estratégia Horizontes Culturais?</b><br>A meta é, até 2027, consolidar as ações culturais no sistema prisional e desaguar em um Plano Nacional de Cultura para o Sistema Prisional, incluindo a criação de um calendário nacional anual de atividades.

Para mais informações detalhadas sobre o impacto da cultura na ressocialização e para conhecer outras iniciativas que transformam vidas no sistema prisional, acesse os canais oficiais do Conselho Nacional de Justiça e de organizações parceiras.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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