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Justiça em campo: CT do Santos em Praia Grande e a Mata Atlântica

Juicy Santos

Em um cenário de grande expectativa para o futebol brasileiro e com a promessa de um complexo esportivo de ponta, o projeto de um novo Centro de Treinamento (CT) para o Santos Futebol Clube em Praia Grande, litoral paulista, encontra-se agora sob o escrutínio da Justiça. Anunciado em um evento festivo com a presença de figuras proeminentes do esporte e da política local, o empreendimento, que seria custeado pelo empresário Neymar da Silva Santos (Neymar Pai), visava oferecer três campos de futebol, um estádio para 25 mil pessoas, hotelaria e uma academia moderna. Contudo, a grandiosidade da iniciativa contrasta com sérias preocupações ambientais e a aparente ausência de um processo de licenciamento adequado, lançando dúvidas sobre sua viabilidade e sustentabilidade. A área designada para o futuro CT do Santos, uma extensa faixa de 90 mil metros quadrados de Mata Atlântica, é o epicentro de uma batalha legal que coloca o desenvolvimento esportivo em xeque com a preservação ambiental.

A controvérsia ambiental e o projeto do CT

O anúncio ambicioso e a ausência de licenciamento

A divulgação do projeto, ocorrida em junho de um ano anterior, prometia uma infraestrutura robusta, financiada integralmente pela NR Sports, braço empresarial de Neymar da Silva Santos, sem custos diretos para o Santos Futebol Clube. A cerimônia contou com a participação do prefeito de Praia Grande, do presidente do clube e de representantes do Grupo Peralta, detentor de parte do terreno. No entanto, o entusiasmo inicial logo foi temperado pela constatação de que, meses após o anúncio, órgãos ambientais como a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) e a Secretaria Municipal de Meio Ambiente não haviam recebido qualquer solicitação formal para o licenciamento ambiental do empreendimento. Essa omissão levantou bandeiras vermelhas, sugerindo uma possível tentativa de contornar os trâmites legais essenciais para projetos de tamanha envergadura em áreas de sensibilidade ecológica.

A intervenção judicial e os réus da ação popular

Diante da aparente inércia dos responsáveis e da ausência de transparência, a Justiça foi acionada. O advogado Rui Elizeu de Matos Pereira e a professora e bióloga Renee Leutz protocolaram uma ação popular com o objetivo de obter uma liminar que suspenda imediatamente qualquer processo de licenciamento e o início das obras do denominado CT Vila Praia Grande. A ação direciona-se a diversos réus, incluindo a Prefeitura e a Câmara Municipal de Praia Grande, o Litoral Plaza Shopping e a empresa NR Sports, apontados como os principais pilares financeiros e institucionais por trás do projeto. Para fortalecer o pleito, os autores da ação reuniram aproximadamente 700 assinaturas de apoio e anexaram ao processo as evidências de um inquérito já instaurado pelo Ministério Público de São Paulo (MP-SP), que investiga possíveis irregularidades no caso. A ausência de audiências públicas, conforme criticado pelo advogado Rui Elizeu, reforça a percepção de um processo que, até então, ocorria à margem da participação cidadã. O valor simbólico da causa foi estipulado em R$ 1 milhão, refletindo a dificuldade de mensurar o potencial dano ambiental irrecuperável.

A defesa da Mata Atlântica e espécies ameaçadas

Zona de amortecimento e a Lei da Mata Atlântica

O ponto crucial da controvérsia reside na localização do terreno escolhido para o CT. A área de 90 mil metros quadrados, coberta por vegetação nativa de Mata Atlântica, insere-se na zona de amortecimento do Parque Estadual Xixová-Japuí. Este parque, criado em 1993, tem como finalidade primordial proteger cerca de 900 hectares de floresta na região da Baixada Santista. A Lei Federal nº 11.428/2006, conhecida como a Lei da Mata Atlântica, é categórica em proibir o desmatamento do bioma em propriedades privadas, exceto em situações excepcionais de comprovado interesse social ou utilidade pública. Um complexo esportivo privado, como o proposto, não se enquadra nessas categorias, conforme argumentado pelos autores da ação judicial. O desmatamento de florestas primárias ou em estágio avançado de regeneração é estritamente vedado, e a construção de campos sintéticos e estruturas comerciais em uma área tão sensível representaria uma violação direta à legislação ambiental vigente.

Impactos ecológicos e a posição dos ambientalistas

Além da floresta em si, o ecossistema completo da região está ameaçado. Os proponentes da ação judicial alertam que o local abriga diversas espécies de aves que se encontram em risco de extinção. A transformação da vegetação nativa em infraestrutura esportiva não apenas eliminaria o habitat dessas espécies, mas também desequilibraria a biodiversidade local, afetando toda a cadeia ecológica. Rui Elizeu enfatizou que a oposição não é contra a construção de um centro de treinamento, mas sim contra sua localização em uma área de Mata Atlântica protegida por lei. Ele sugere que projetos como este deveriam ser desenvolvidos em áreas já degradadas, onde o impacto ambiental seria minimizado. A comunidade científica e os defensores do meio ambiente reiteram a importância da Mata Atlântica, um dos biomas mais ameaçados do planeta, e a necessidade de proteger suas últimas porções remanescentes, especialmente aquelas localizadas em zonas de amortecimento de unidades de conservação.

Precedentes e mobilização popular

Histórico de Neymar pai em questões ambientais

A presente controvérsia não é o primeiro episódio em que o empresário Neymar da Silva Santos, pai do renomado jogador de futebol, se vê envolvido em polêmicas ambientais. Em 2023, a Secretaria Municipal do Meio Ambiente de Mangaratiba, no Rio de Janeiro, aplicou multas que totalizaram R$ 16 milhões a ele e a seu filho, em decorrência de danos à vegetação nativa durante uma reforma irregular em um lago na mansão da família. Embora a Justiça tenha anulado essa multa em 2024, o incidente permanece como um registro no histórico de envolvimento do empresário com questões ambientais sensíveis. Este precedente, embora anulado, adiciona uma camada de escrutínio público à seriedade com que as normas ambientais são tratadas nos projetos vinculados à família.

A voz da comunidade e a mudança do cenário

A resistência ao projeto do CT não se manifesta apenas nos tribunais. Em outubro de um ano anterior, moradores de Praia Grande organizaram protestos nas ruas, denunciando a ausência de diálogo e a falta de consulta pública sobre o empreendimento. A Associação dos Moradores do Canto do Forte (Amoforte) liderou as cobranças por maior transparência e participação comunitária. Paralelamente, uma petição online contra o projeto obteve mais de 3.400 assinaturas, evidenciando uma mobilização popular significativa. O "campo de batalha", como descrito pelos envolvidos, migrou das manifestações de rua para as salas do fórum, refletindo a crescente judicialização de questões ambientais e urbanísticas. Um detalhe geográfico chama a atenção: o terreno adjacente ao futuro CT é o Litoral Plaza Shopping, inaugurado em 1998 em uma área que, sob a legislação atual, seria igualmente inviável para construção. Na época, a Lei da Mata Atlântica ainda não existia, e a proteção do bioma era regida por um decreto federal com normas mais flexíveis, conforme explicado pela presidente da Comissão de Direito Ambiental do Instituto de Advogados de São Paulo (IASP), Priscila Artigas.

O futuro incerto do centro de treinamento

Próximos passos da justiça e do Ministério Público

Atualmente, o destino do CT Vila Praia Grande aguarda a decisão do juiz sobre o pedido de liminar. Caso a liminar seja concedida, qualquer movimentação de máquinas ou corte de árvores será impedido até que os órgãos competentes realizem uma análise aprofundada dos impactos ambientais do projeto. Esta é a principal demanda dos ambientalistas e da comunidade desde o início do anúncio. Simultaneamente, o inquérito aberto pelo Ministério Público de São Paulo continua em andamento, adicionando outra camada de fiscalização sobre o empreendimento. Assim, o projeto enfrenta, em diferentes frentes, uma ação popular, a investigação do MP e uma considerável mobilização popular, o que configura um cenário complexo e desafiador para sua concretização nos moldes inicialmente propostos.

O dilema entre o esporte e a preservação ambiental

A promessa de Neymar da Silva Santos de entregar um Centro de Treinamento moderno e "gratuito" para o Santos Futebol Clube se choca com a questão fundamental levantada pela ação judicial: qual é o verdadeiro custo quando o que se destrói não tem preço? A Mata Atlântica, um patrimônio natural de valor inestimável, não oferece segundas chances em caso de destruição. Por outro lado, a licença ambiental, um instrumento de regulação e mitigação de impactos, é um processo que pode e deve ser revisado e aplicado rigorosamente para garantir a sustentabilidade de qualquer empreendimento. O caso do CT do Santos na Praia Grande se torna um emblemático exemplo do constante dilema entre o desenvolvimento urbano e a preservação ambiental, onde a busca por avanços infraestruturais precisa ser equilibrada com a responsabilidade ecológica e o respeito à legislação vigente.

Perguntas frequentes (FAQ)

<b>O que é o projeto do CT Vila Praia Grande?</b><br/>É um ambicioso projeto para construir um Centro de Treinamento para o Santos Futebol Clube em Praia Grande, litoral de São Paulo. Ele incluiria três campos de futebol, um estádio para 25 mil pessoas, hotelaria e academia, financiado por Neymar da Silva Santos (Neymar Pai) por meio de sua empresa NR Sports.

<b>Quais são as principais preocupações ambientais relacionadas ao CT?</b><br/>A principal preocupação é que o terreno escolhido, de 90 mil metros quadrados, está localizado em uma área de vegetação nativa de Mata Atlântica e na zona de amortecimento do Parque Estadual Xixová-Japuí. A Lei da Mata Atlântica proíbe o desmatamento nessa área, e o projeto pode ameaçar espécies de aves em extinção e desequilibrar o ecossistema.

<b>Quem são os envolvidos na ação judicial contra o projeto?</b><br/>A ação popular foi movida pelo advogado Rui Elizeu de Matos Pereira e pela bióloga Renee Leutz. Os réus incluem a Prefeitura e a Câmara Municipal de Praia Grande, o Litoral Plaza Shopping e a empresa NR Sports. O Ministério Público de São Paulo também mantém um inquérito aberto sobre o caso.

<b>A Lei da Mata Atlântica permite construções em áreas como esta?</b><br/>A Lei Federal nº 11.428/2006 (Lei da Mata Atlântica) proíbe o desmatamento do bioma em propriedades privadas, salvo em casos de comprovado interesse social ou utilidade pública. Um complexo esportivo privado, como o proposto, geralmente não se enquadra nessas exceções, tornando o projeto incompatível com a legislação se a área for de Mata Atlântica nativa.

Conclusão

O embate judicial em torno do Centro de Treinamento do Santos em Praia Grande simboliza um conflito maior entre a ambição de desenvolvimento e a imperativa necessidade de preservação ambiental. A promessa de uma infraestrutura esportiva de ponta, custeada por investidores privados, esbarra nas leis que protegem um dos biomas mais ricos e ameaçados do Brasil: a Mata Atlântica. A mobilização popular e a ação da Justiça ressaltam a importância da transparência e do respeito aos processos de licenciamento ambiental, que são mecanismos cruciais para garantir que o progresso não ocorra às custas de um dano ecológico irreversível. O desfecho deste caso não definirá apenas o futuro de um complexo esportivo, mas também estabelecerá um precedente significativo sobre como empreendimentos de grande porte devem ou não interagir com o patrimônio natural do país.

Para se manter atualizado sobre esta e outras importantes discussões sobre o equilíbrio entre esporte, desenvolvimento e meio ambiente, acompanhe nossas publicações e análises aprofundadas.

Fonte: https://www.juicysantos.com.br

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